A invenção

A invenção

Marcelo Rubens Paiva

14 de junho de 2010 | 11h05

gps 

De repente, você se vê perdido.

O medo domina suas ações.

É preciso tomar decisões.

O destino parece incerto, dúvidas à frente. Tantas possibilidades a seguir…

O que fazer, que caminho traçar, o que vem adiante, devo ou não devo?

Então, uma voz doce, calma e sábia surge. Nos dá segurança. Parece entender de tudo, conhecer os atalhos do desconhecido.

Com um comando convincente, indica:

“Virar à direita. Seguir em frente. Contornar o obstáculo. Na próxima esquina, virar à esquerda. Você está a apenas uma quadra do seu fim. Objetivo alcançado. Você chegou ao seu destino.”

Pode ser uma voz feminina amiga.

Pode ser programado para que a voz seja masculina firme e didática.

O motorista não se sente mais sozinho. E, por um pequeno monitor colorido, está protegido, monitorado pelo que há de mais moderno.

Por um GPS (Global Positioning System), a preço acessível, configurado em paineis de carros e celulares- navegador global regido por uma rede de satélites que, sob sol e chuva, frio e calor, indica a localização confiável de qualquer canto obscuro deste planeta.

Mantido pelo governo americano, é facilmente adquirido por qualquer cidadão do mundo, independente de suas virtudes e defeitos.

Não tem preconceitos de raça, credo, não faz distinções de classe social e instrução, não está nem aí para as boas e más intenções do seu usuário. Pode ser uma freira indiana ou um homem-bomba.

É como a voz de um todo poderoso, que a todos protege, que ninguém entende de como é feito, mas o segue como a um guia espiritual.

Há indícios de que este é apenas o começo de uma revolução no comportamento humano.

Como a máquina de calcular, que nos fez esquecer de como realizar operações corriqueiras de somar e subtrair em guardanapos de mesas de bar, na hora de dividir a conta.

Como o computador, que fez do gesto ancestral de escrever a mão algo tão desnecessário quanto uma torneira num deserto.

Ou o Google, que dispensa a abertura de dicionários, listas telefônicas, enciclopédias e até a consulta de farmacêuticos.

Estamos apenas no limiar de uma nova era.

O pequeno aparelho vai evoluir.

Novas ideias irão aparecer.

A começar pela voz do além que nos orienta.

Será possível, em breve, programar um GPS para que a voz saia e indique os caminhos de acordo com as preferências do usuário. Exemplos:

1. O conquistador. Poderá optar por uma voz sedutora, doce e lascívia: “Vire à direita, gostosão. Agora à esquerda, tigrão. Vai fundo. Vem com tudo, como você é lindo, me atrai, suas mãos no volante me excitam, mude a marcha agora, ai, que gostoso, mude de novo, isso, não para, estou arrepiadinha. Como você é potente, acelera, isso, rápido, estamos chegando, vai, vai… Ufa. Você é uma máquina, hein? Gozou comigo?”

2. O sadomasoquista: “Vai, palhaço, entra à direita, não viu que tinha um farol, otário?! Tá maluco, corno? Mais devagar. Quer se arrebentar todo, então cruza esta preferencial, quero ver se tem coragem, idiota! Anta, era à esquerda! Não serve pra nada, mesmo, bem que seu chefe tem razão, seu inútil!”

3. O mimado: “Filhinho, você está bem agasalhado, está entrando uma frente fria, trouxe guarda-chuva? Vai com cuidado. Era à esquerda. Tudo bem, errar é humano, não chore, entre na próxima, mamãe te ajuda a encontrar o caminho. Tá com fominha?”

4. A insegura: “Vai, linda, arrebenta. Canta comigo: It’s raining man, aleluia… Essa esquina é tuuudo. Tá combinando, sim, o cabelo tá brilhando, que olhos lindos. Adorei suas unhas. Próxima à direita. Emagreceu, hein?”

5. O marombeiro: “Flexione os bíceps para entrar à direita, um, dois, um, dois, agora o outro, um, dois, um, dois, atenção com os pedais, alongue no adutor, um, dois, um dois, não pare…”

6. A iogue: “Respire pelo nariz, sinta as boas vibrações que emanam do universo. Olhe que árvore bonita que você está cruzando. O verde nos acalma. Que astral está o dia hoje. Não ligue para estes chatos que buzinam, te xingam, te fecham, vá devagar, curtindo este pôr do sol. Maior astral se você entrar à esquerda na próxima.”

7. O mano: “Direita, certo! É nóis. Siga em frente, tá ligado? Aê, mano, a próxima é às esquerda, certo, truta? Pelas quebrada desse mundão, agora. É nóis mesmo. Demorô! Embaçado…”

Em anos, o sentido do GPS será estendido para outras funções, como chips implantados no cérebro, que orientam dúvidas profundas existenciais e jogam com o inconsciente. Controlarão impulsos nervosos, como um superego digital.

Numa briga com a mulher ou o marido, aparecerá a voz que só o usuário escutará:

“Diga que ela é a pessoa mais importante da sua vida, elogie sempre, cite datas importantes, diga agora que você adora, agora fique em silêncio, faça uma cara pensativa, sorria e vá, abrace, beije.”

E todas as dúvidas da nossa existência serão esclarecidas por uma voz que vem do espaço. Indicara os caminhos.

Reinventaremos Deus. A R$ 400 pratas.

Basta configurá-lo. Como os homens fazem há milênios.

 

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Passei outro dia pela SPFW, no Ibirapuera.

A maior concentração de anorexas da cidade.

Passseata das sem-fome?

Na verdade, eu tinha uma reunião no restaurante do MAM, ao lado.

Vi muitos amigos por ali, inclusive o homem de letras CASSIANO MACHADO, elegante, ex-crítico literário da FOLHA e chefão da FLIP.

Me chamaram para entrar no prédio da Bienal.

Visitei o GLAMURAMA procurando pela JOYCE.

Um dos primeiros empregos que eu tive foi com ela.

Escrevia com BIVAR e CAIO FERNANDO ABREU para as revistas dela, primeiro a AROUND, depois a AZ.

Acostumado a feiras de livros e de deficientes, coaóticas, notei o quanto o pessoal de moda tem bom gosto, o como a sua feira é chique, organizada.

Tinha DJ até na área de fumantes.

Onde vi esta figura aí.

Não, não tenho coragem de aparecer num boteco com este figurino.

Mas admiro a coragem dele.

 

rosa 003

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