a insignificância humana e o ciclo

a insignificância humana e o ciclo

Marcelo Rubens Paiva

20 Fevereiro 2013 | 21h27

 

No meu tempo, os uniformes dos colégios começaram a ser abolidos.

Ainda peguei a camisa social de manga curta, a bermudinha até 3 dedos acima dos joelhos, o símbolo da escola bordado no bolso.

Ainda peguei as meninas de saias com pregas, as meias esticadas, os sapatos escovados de couro preto, os laços e alças.

Nossas bermudas viraram jeans desbotados.

Os sapatos pretos e engraxados, de amarrar, se transformaram em tênis argentinos, ou contrabandeados, ou cópias nacionais, como Conga e Bamba.

As pernas das meninas foram cobertas. As provocantes saias das meninas viraram recordações de tempos inocentes.

Assim se alimentou a triste indústria da vaidade, da grife, da ganância.

Pois desde a escola se aprende a se exibir.

Mas também encerrou o ciclo em que tratava o indivíduo como parte de um todo, como massa [inspiração do fascismo].

Minha geração não fez formaturas.

Reinou o desejo de contestar a massificação imposta por um regime autoritário que entrava em colapso, uma sociedade patriarcal disciplinadora, rígida, careta, quadrada.

Era a troca da cultura da guerra e da pureza racial pela do paz & amor e respeito aos direitos civis individuais.

O barato passou a ser diferente, único, doido.

Pintava-se a própria camiseta.

Uniforme lembra exército, guerra!

Montávamos as sandálias com restos de pneus, rasgava-se a calça, tingíamos, bordávamos, misturávamos elementos: camisa do avô rasgada, com calça de tecido do colchão velho, mais uma jaqueta do Exército com pins e bótons da irmã.

O conceito era “do it yourself” [faça você mesmo], o motor do movimento punk

Uma forma de desobediência contra a ditadura da moda, dominada pelas grifes e marcas de grandes corporações.

Combatiam-se os armamentos nucleares a sociedade de consumo.

Então, as marcas, grifes do império, contra-atacaram.

Transformaram o protesto em moda, expôs nas revistas o diferente, levou para as butiques. Crianças e trabalhadores semi escravizados do Leste Asiático passaram a pintar, confeccionar, rasgar, tingir e bordar nossas roupas.

O preço caiu.

O produto se massificou.

Nos tornamos um grupo que aparenta se diferenciar.

Mas ser diferente passou a ser a regra, o comum.

Assim voltamos à nossa insignificância, crianças inocentes. Faltam a bermudas, a saia, o sapatinho preto, a meia ¾. E a simplicidade.