A injustiça do pós capitalismo

A injustiça do pós capitalismo

Marcelo Rubens Paiva

28 Março 2017 | 10h27

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O capitalismo tem a qualidade de se renovar. De sair de crises agudas sem derramamento de sangue. De ter as janelas para uma intervenção organizada. Saiu atordoado engolindo água das várias ondas de colapso.

No entanto, vive o paradoxo da concentração de renda, que nos faz voltar muitas casas no tabuleiro da história.

A era dos feudos voltou.

Seu propósito era aumentar o bolo, a riqueza, e distribuir as fatias. Não deixar as economias se estagnarem.

A competição e o livre mercado melhorariam e barateariam a produção. Criar oportunidades era o fermento necessário. Bens de consumo poderiam ser consumidos por uma parcela cada vez maior de gente.

No entanto, o lucro está a cada ano que passa fluindo para um grupo cada vez menor.

A fortuna total dos dez mais ricos do mundo (Bill Gates, Warren Buffett, Jeff Bezos, Amancio Ortega, Mark Zuckerberg, Carlos Slim, Larry Ellison, Charles Koch, David Koch e Michael Bloomberg), , segundo a lista da Forbes que acabou de sair, é superior a US$ 600 bilhões.

Oito deles são americanos.

A metade ganha dinheiro com TI (Tecnologia da Informação): Microsoft, Facebook, Google e Amazon.

A fortuna dos 20 mais ricos soma US$ 980 bilhões. Na lista dos 30 mais ricos, na fortuna que soma US$ 1,3 trilhão, curiosidades como a presença dos donos do delicioso Nutella e do chocolate Mars, que eu não sabia que dava tanto dinheiro.

Os 40 mais ricos, com dois brasileiros, detém U$$ 1,5 trilhão.

O patrimônio dos 62 mais ricos é igual ao da metade dos mais pobres do mundo (dados da organização não governamental britânica, Oxfam, apresentados no ano passado). O dos cem mais ricos, em torno de US$ 2,4 trilhões.

A comparação é fictícia, mas os cem mais ricos do mundo, se formassem um país, seriam o sétimo colocado na lista de países mais ricos (PIB).

Perderiam apenas para os Estados Unidos, China, Japão, Alemanha, Reino Unido e França. Estariam na frente da Índia, Brasil, Canadá e Rússia. Os cem mais ricos poderiam formar um bloco e pertencer ao G7.

Os 1.810 bilionários da lista da Forbes têm US$ 6,5 trilhões. Equivale à riqueza de 70% da humanidade.

Os 1% mais ricos do mundo detém mais que o resto de 99% da população do planeta.

A desigualdade acentuou na crise financeira de 2008.

O que leva muitos a se perguntarem se Marx não estaria certo.

O economista-jornalista Paul Mason, no livro Pós Capitalismo – Um Guia Para o Nosso Futuro, dedica um capítulo à tese de que, em partes, Marx, que previu que o capitalismo ruiria, como a maioria dos economistas da época, tinha razão.

É questionável o determinismo histórico. Não há possibilidade de, hoje, os trabalhadores do mundo unirem-se e iniciarem uma revolução como há cem anos. Até porque a maioria deles virou terceirizada, virou empreendedor, seu próprio patrão, ou um robô que não protesta e se satisfaz com gotas de lubrificante nas juntas.

O único proletariado numerosamente disponível para atropelar um exército já vive num país comunista, a China. No mais, a utopia se encantou pelo consumo decadente e fútil, aquilo que levaria ao desencanto capitalista e alienaria a população, segundo Marx.

Mason pontua que Marx dizia que o capitalismo é um sistema instável, frágil e complexo, que os diferentes agentes do mercado atuam com uma força desigual.

O tema central de O Capital, como mecanismos do mercado levam a crises, continuaria válido – por meio do sistema financeiro, na lei mais fundamental da economia, o capital, investido em maquinário, matérias-primas e insumos, reduz o alcance do trabalho gerar lucro.

A riqueza acumulada por 1% da população mundial é superior a tudo o que os demais possuem. Estamos felizes com nossos smartphones de última geração que falam conosco, e tênis que são macios e generosos.

Mas jamais sairemos desse vício de consumo que aparentemente faliu e desorganizou o Estado de bem-social.

Curiosidades.

O empresário mais rico do Brasil, Jorge Lemann, da AB Inbev, Burguer King e Heinz, aparece na lista da Forbes em 22º lugar. Fortuna: 29,2 bilhões de dólares. Dos dez mais ricos do Brasil, mais dois nomes são da Inbev. Três são os herdeiros da Globo, José Roberto, João Roberto e Roberto Irineu Marinho. Apenas Eduardo Saverin vem casualmente, porque estava na hora certa na república estudantil certa, do mundo da Tecnologia da Informação (Facebook).

Entre os 40 mais ricos, temos dois varejistas, dois cuja origem do patrimônio vem de hospitais, dois do ramo de medicamentos. Três são da Camargo Corrrêa, um da Natura e outro da Boticário, colados. Do sistema financeiro, 14 bilionários; mais de 30%.

Cerveja, bancos, empresa de telecomunicações que contempla jornal, rádio, editora, TV a cabo, revistas, jornalismo, esportes, séries, que exibe na programação sete novelas por dia (cinco inéditas), perfumes, remédios e, claro, duas empreiteiras, estão entre os mais ricos do Brasil.

Tecnologia não é nosso forte. A grosso modo, o que dá dinheiro no Brasil é breja, juro bancário, doença, perfume e melodrama.