A herança em disputa de Renato Russo

A herança em disputa de Renato Russo

Marcelo Rubens Paiva

03 de novembro de 2015 | 10h05

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Passei um tempinho em Brasília na casa da família Dado Villa-Lobos, em que a Legião ensaiava e compunha o segundo LP, enquanto os pais do Dado moravam fora.

Era Carnaval.

Íamos aos parques de Brasília no fins da tarde ver o pôr do sol.

Passávamos a noite bebendo, rindo, fumando e papeando. Dormíamos bem tarde.

Eu dormia depois de todos (sempre foi assim na minha vida).

Não sei de onde eles tiravam tanta energia: às 8h em ponto começavam a ensaiar.

Na primeira manhã, OK. Na terceira, meu humor estava descontrolado.

Eu tentava dormir, mas a guitarra do Dado praticando o solo da introdução de uma música, repetindo, repetindo, a voz do Renato, a bateria, me tiravam do sério.

Ensaiavam na área de serviço.

Numa manhã, acordei de bode e fui tomar café na sala.

Renato apareceu com um papel de caderno. Me convidava para escrever uma letra com ele, da música que a banda ensaiava. Ele ia e voltava. Até eu dar um basta:

– Acabei de acordar, depois, vai, temos todo tempo…

Meses depois, estourava a música trabalho do disco Dois, o novo da Legião.

Tempo Perdido: “Todos os dias quando acordo, não tenho mais o tempo que passou. Mas tenho muito tempo, temos todo o tempo do muuuundo…”

Muita gente sabe dessa história. Até o Dado relatou no seu livro Memórias de Um Legionário.

Uma música é na maioria das vezes uma composição anárquica, coletiva, sem dono.

Numa banda, nos ensaios, um inventa um solo, o outro, o ritmo, lê-se uma frase num livro (como “é importante amar as pessoas como se não houvesse o amanhã”), ou alguém no estúdio sugere mudar frases inteiras de uma letra.

O documentário do Godard, Sympathy for the Devil, sobre o processo de criação e gravação da música Sympathy for the Devil, dos Stones, mostra como se demorou para chegarem na versão final daquela que é considerada um marco na carreira da banda.

E quem conhecia bem Renato sabe que, por vezes, ele compunha com o rádio ligado, juntando frases ouvidas.

As palavras das músicas que tocavam iam levando ele a compor, a montar o quebra-cabeça de suas letras.

Quem leu a entrevista sexta-feira que o filho do Renato, Giuliano Manfredini, deu ao grande repórter Julio Maria no ESTADÃO, percebeu que o filho zela pelo espólio do pai.

Mas zela como se zelasse uma empresa, não a obra de um poeta-artista-compositor-idealista, parte de uma banda, de um movimento que justamente combatia o sistema. Não é um negócio, é poesia..

Dado e Bonfá querem incluir no repertório a versão original da inédita 1977, música da banda toda, como atesta um documento enviado à Censura Federal.

O filho não deixa, pois a música, que aliás inspirou Tempo Perdido, seria só do pai; e disse que tem documentos que confirmam.

Giuliano defende que não existe Legião sem o pai. Ninguém contesta.

Mas quem melhor do que seus parceiros e amigos de anos para representá-lo?

Ele fala de um complô para “enfraquecer” a figura do pai, em “apropriação”, em tentativa de “prejudicar a memória”…

Quem conheceu Renato e a banda ficou chocado.

O repórter Julio Mario ainda perguntou se ele não estaria tendo uma leitura maquiavélica dos fatos.

Guiliano, que chegou a cursar administração de empresas, é herdeiro legítimo de Renato, e ninguém contesta.

Deve sim ter cuidado do vandalismo contra a obra do pai (uma música dele, recentemente, serviu de trilha para o anúncio de um banco).

Mas não é o único “herdeiro”: todos nós nos sentimos próximos e parentes de tudo o que o Renato fez e representa.

E donos indiretos de sua obra, que faz parte da nossa história.

Somos amigos e parceiros de um momento em que se discutia a propriedade, o lucro, o capitalismo, o papel da arte, a canibalização da poesia.

E que se comemorava a amizade.

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