A Croácia e o nazismo

A Croácia e o nazismo

Marcelo Rubens Paiva

12 Julho 2018 | 13h19

Você admira a raça, a entrega e o futebol praticado pela Croácia? Vai torcer por ela?

Muita gente diz “não” com convicção.

Mesmo com fim da guerra em 1945, o nacionalismo fervia o sangue croata, por conta do racha religioso entre católicos e seguidores da Igreja Ortodoxa. Veio a morte de Tito, a queda do Muro de Berlim e o esfacelamento do país nos anos 1990.

O ódio entre vizinhos surpreendeu: guerra, separação, fuzilamentos, valas comuns e campos de concentração.

Músicas racistas e saudações fascistas passaram a fazer parte da rotina em estádios e, pior, incentivada por jogadores. Ainda hoje cantam a canção de ode ao nacionalismo, como Bojna Cavoglave (da banda de hard rock, Thompson), diz Gabriel Santos do site Esquerda Online.

O capitão da seleção de 2014, Josip Simunic, fez saudações nazistas e cantou com torcedores, quando o país se classificou para a Copa do Mundo no Brasil, música que homenageava o partido nazista croata dos anos 1940. Ele foi suspenso e proibido de jogar a Copa.

A Croácia é hoje um badalado point turístico, com suas ilhas e praias paradisíacas diante do Adriático.

A cidade medieval costeira de Dubrovnik serviu de cenário para a série Game of Thrones.

Mas quando os nazistas atravessaram a fronteira e entraram em 1941 na Iugoslávia, encontraram uma nação empolgada com suas ideias extremas de raça superior e lavagem étnica.

O partido de extrema-direita, Ustasha, seguia a cartilha nazifascista e nacionalista. Lutava pela independência da Croácia contra a fronteira artificial da Iugoslávia.

Nazistas ajudaram na criação de um estado independente cuja capital era Zagreb.

A fúria dos nacionalistas deu em perseguições a servos, judeus, ciganos, homossexuais e comunistas. Campos de concentração surgiram, como Jasenovac, em que se matou em torno de 100 mil.

O futebol pode enaltecer um nacionalismo extremo.

Mas o filósofo croata de esquerda, Srećko Horvat, é otimista.

Afirma devemos ver a Copa do Mundo como um reflexo invertido da coisa que está faltando na política hoje: a esperança.

“A lição que nós de esquerda devemos tirar desta Copa do Mundo é a sua capacidade de nos fazer sentirmos parte de algo maior que nós mesmos e de recriar o sentido comunitário perdido na política atual”.

“O nacionalismo e o populismo não são, como temíamos, a única forma de mobilização coletiva que pode unir as pessoas com uma crença compartilhada no futuro. O que precisamos fazer agora é aproveitar o sentimento de união que essa Copa do Mundo criou para a política participativa”, escreveu ao The Guardian.

“A questão mais importante para nós da esquerda não é tanto se será possível libertar o futebol do espírito nacionalista, mas como podemos, independentemente das fronteiras nacionais e das identidades nacionais, reinventar a esperança e o espírito coletivo de construir um futuro comum. Se a Copa do Mundo de 2018 está sendo descrita como uma batalha europeia, existe um futuro para a Europa além do bom futebol?”