A censura de volta?

A censura de volta?

Marcelo Rubens Paiva

03 Outubro 2018 | 11h53

Quem viveu a ditadura, ou, como prefere o ministro Dias Toffoli, o regime do “movimento”, lembra-se da tragicomédia que era a censura.

Trágica, pois trazia um dano profundo para o debate e elucidação dos problemas brasileiros; até um mapeamento da fome no mundo, feito pela Igreja, foi censurado.

Cômica, porque era insana; como ator de peça infantil, fazíamos uma sessão para a censora, uma senhora respeitosa, idosa, para obter certificado; tínhamos 14 anos.

O Brasil gargalhava nos cinemas na cena de um sexo a três de Laranja Mecânica (Stanley Kubrick). A censura apenas o liberou com bolinhas pretas cobrindo os membros dos atores. Como a cena é em câmera rápida, a bolinha ficava correndo pela tela.

O livro Meninos sem Pátria acaba de ser censurado no Colégio Santo Agostinho, considerado O colégio do Leblon, paradoxalmente zona eleitoral em que as pessoas do bairro votam.

É baseado numa história real e foi acusado por pais e alunos de retratar a ditadura sob o ponto de vista da esquerda.

Lançado em 1981 por Luiz Puntel, é inspirado no caso do jornalista José Maria Rabêlo, criador com Euro Arantes do tabloide Binômio, que teve quer se exilar, fugir com a mulher e sete filhos, durante a ditadura.

O caso foi parar na página Alerta Ipanema, do Facebook, com 18 mil seguidores, que faz campanha dos deputados Jair e Flávio Bolsonaro à Presidência e ao Senado:

Alerta Ipanema

1 de outubro às 12:37

Colégio Santo Agostinho – Leblon É ACUSADO DE DOUTRINAR CRIANÇAS DO SEXTO ANO (11 e 12 anos) COM IDEOLOGIA COMUNISTA EM SALA DE AULA

“Bom dia. Os pais do 6o ano do CSA estão indignados com o livro que a escola mandou ler no 4o bimestre. Meninos Sem Pátria conta a história de um jornalista que vive exilado com a família durante o regime militar e mediante a aventura, o livro critica governos militares enaltecendo a ótica de esquerda.”

 

Pressionada, a direção do colégio suspendeu a adoção do livro adotado em muitas escolas desde 1981.

Entre os que responderam o post, apoiadores da censura e muitos críticos.

Gustavo Zeitone: “Tirem seus filhos dessa escola.”

Técnica Santec: “Quero estar presente quando começar a queima. Vão ler a Bíblia!”

Flavia Cruz: “Excelente denúncia. Finalmente, depois de décadas de controle comunista, começamos a agir! Que mais livros tendenciosos como este sejam retirados das escolas. Basta de manipular as crianças com informações falsas.”

Rodrigo Gomes: “Fiquei curioso pra ler, ainda mais pq penso em colocar minha filha pra estudar lá. Será que realmente o livro enaltece a esquerda ou o simples de criticar a ditadura já faz os pais pensarem assim. Na minha época eu li livro que criticava a ditadura.”

Paulo H S Moreira: “Gente, menos. Li esse livro no colégio, no quinto ano, lá em 1992 e se tem alguma coisa que não sou é comunista. Banir literatura é a primeira medida de qualquer regime totalitário. Censura é coisa de cubano.”

Delisete Menezes: “Alguns pais é que precisam estudar. Estudei sobre tudo isso nos anos 70, antes da Era Mimimi. Fiz um trabalho escolar na época do Papel e Caneta e tive que ler o livro A Revolução por Dentro. Hoje, nossa história tornou-se um amontoado de pode/não pode. Que chato!”

Kika Vianna: “Qualquer dia vcs estarão dizendo que escolas tb não deviam recomendar a leitura do Diário de Anne Frank, lido por jovens do mundo inteiro. Menos, né?!”

Carol Berriel: “Agora as pessoas ficaram a favor da ditadura… é um retrocesso sem tamanho! Todos precisam ler, precisam saber das barbaridades que foram feitas e marcaram toda uma nação… Isso é história! Não pode ser apagada… o que mais me choca é o radicalismo, tirar os filhos da escola? Oi? E o pior… mulheres dizendo isso… lamentável!”

Renato Veras: “Que absurdo destes pais. Minha filha estuda há 11 anos no CSA Leblon e ela recebe uma ótima educação social, acadêmica religiosa e humanista, aliás famílias preconceituosas, leiam Santo Agostinho e sejam menos preconceituosos e mais solidários!”

João Carlos Oliveira: “Criticar a ditadura não significa enaltecer a esquerda, a obra traz uma ótica particularmente diferente sobre o que foi esse período da história, o livro é usado didaticamente a fim de desenvolver o senso crítico no aluno. Não vejo nada de errado no material!”

Mario Gomes Da Silva: “Lembro de algo similar na Alemanha nos anos 30”

Guilherme Cunha: “O livro existe desde 1981. O regime militar nunca implicou com ele. Eu li na série Vaga-Lume, que formou gerações de milhões de leitores. A pessoa tem que estar muito mal da cabeça pra achar que a Série Vaga-Lume doutrina alguém.”

A censura durante a ditadura agiu pesadamente contra revistas, jornais, filmes, teatro, até novelas globais.

Foi levantada a censura política nos anos 1970, graças aliás a um editorial do Estadão.

Continuou na música. Raul Seixas até fez uma música para ela, “Anos 1980”: Hey, anos 1980, charrete que perdeu o condutor. Hey, anos 1980, melancolia e promessas de amor. É o juiz das doze varas de caniço e samburá dando atestado que o compositor errou, gente afirmando não querendo afirmar nada, que o cantor cantou errado e que a censura concordou. Hey, abram alas, aí viem los anios oitenta. La mamacita, ui! Hey, anos 1980, charrete que perdeu o condutor…

Ela foi instituída com o AI-5 em 13 de dezembro de 1968, que criou a Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP), por onde deveriam passar previamente todas as obras artísticas — filmes, peças de teatro, músicas, discos — antes de serem executados nos meios públicos.

Nos anos 1980, passou para a PF, que mirava o rock que surgia.

Veraneio Vascaína, de Renato Russo, ainda na fase Aborto Elétrico, assim como Conexão Amazônia, foram censuradas.

Cruel Cruel Esquizofrenético Blues e Ela Quer Morar Comigo na Lua da Blitz foram censuradas.

Sônia, do Leo Jaime, foi censurada. Sônia era Sunny, clássico dançante dos anos 1960 de Bobby Hebb, que ganhou a versão brasileira bem sacana: Sônia, vamos nessa festa fazer um trenzinho, você na frente e eu atrás, e atrás de mim um outro rapaz… A censura exigiu que o disco viesse com o selo “proibido para menores de dezoito anos” e fosse vendido lacrado.

Leo Jaime voltaria a ser censurado: Cobra Venenosa.

Em desforra, o compositor gozador fez Solange (sobre as bases da música do Police, So Lonely). Em homenagem a Solange Maria Teixeira Hernandes, chefe da censura brasileira (do DCDP, entre 1981 e 1984), a patética figura conhecida como dona Solange

Em 1984, foi a vez de Lobão, em Teoria da Relatividade. Em 1985, foi a vez de Roger, do Ultraje, hoje apoiador declarado de Bolsonaro, com as divertidas Marylou e Prisioneiro.

Em 1986, Titãs: Bichos Escrotos”. Depois, foi a vez de Música Urbana, do Capital Inicial, receber o veto da censura.

Para Fernando Molica, da Veja, Luiz Puntel disse que nunca teve problemas com a obra lançada há quase quarenta anos.

“Mães que protestaram contra a adoção do livro ressaltaram também trecho que, segundo elas, apresenta uma visão equivocada de Jesus Cristo. Trata-se do diálogo de um dos filhos do jornalista com um padre. Na conversa, o sacerdote afirma que o pai do garoto estava sendo perseguido por defender suas ideias, e que Cristo também fora mal interpretado. Em seguida ele diz que o crime de Jesus ‘foi estar sempre ao lado dos pobres e resumir toda a sua filosofia em uma única frase: Amai-vos uns anos outros’”, escreveu Molina.

Rebelo fugiu de BH vestido de padre no Golpe de 64, perdão, Movimento. Passou pela Bolívia, Chile e França. Ao todo, 16 anos no exílio. Quando retornou, recuperou a obra do Binômio graças à irmã.

Publicado 1952 e 1964, 801 em edições, Binômio vendia 60 mil exemplares e hoje pode ser acessado pela internet. Satirizava a política, durante os governos JK, revelou Gabeira, Ziraldo e serviu de inspiração ao Pasquim, outro que vivia nas garras da censura.