3 Marcelos, 1 Ale e 1 Mário

3 Marcelos, 1 Ale e 1 Mário

Marcelo Rubens Paiva

19 de outubro de 2009 | 19h57

MARCELO TAS é meu amigo há tantos anos. Ele tinha franja ainda quando o conheci no OLHAR ELETRÔNICO e trabalhamos juntos. Foi inesquecível a nossa visita ao PRESÍDIO, em que entrevistamos o Bandido da Luz Vermelha, matéria que foi pro ar pela antiga TVA, lá pelos anos 80.

Ambos somos ligados em teatro, tv, seu sarcasmo se parece com o meu. Deve ter sido ele quem pautou o CQC para cobrir a estreia na minha peça, A NOITE MAIS FRIA DO ANO, na última terça-feira lá no Rio de Janeiro, no Teatro Poeira.

Achei bacana. Fiquei honrado. Raro um programa de tevê aberta cobrir uma estreia de uma peça. Passa daqui a pouco na BAND. Veremos se falei muita besteira, sob os nervos alterados de uma estreia tão importante e badalada.

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Aliás, eu e o Mário Bortolotto estaremos no palco da próxima Satyrianas, com a peça ROURKE SONG, que fizemos na edição do ano passado. São dois amigos na mesa de um bar bebendo e falando de… Lógico, de mulheres.

Não é meu debute como ator, já que fiz teatro amador nos anos 70, no grupo de teatro do CLUBE PAULISTANO. Mas agora é outra praia, digo palco.

Fomos escalados para sábado, dia 31, depois da meia-noite. Quem se arrisca?

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Aliás, meu amigo ALE PRIMO manda avisar que nosso documentário sobre o POLANSKI vai estar na MOSTRA DE CINEMA, dia 27/10, no CINE SESC, 20h30. Enfim! Olha a ficha:

Roman Polanski, documentário de Alê Primo, estréia na Mostra
filme é uma realização da Gerência Audiovisual do SESC SP
uma longa entrevista com o diretor foi feita em 2004, no Brasil
além do próprio, há depoimentos de Hector Babenco, Cacá Diegues, Ugo Giorgetti, Caetano Veloso e Gilberto Gil

há trechos de grande parte da filmografia do diretor

Marcelo Rubens Paiva é coautor do roteiro

Nascido em Paris e filho de poloneses, Roman Polanski voltou à cidade natal de seus pais com apenas três anos. Na época, Stalin e a Rússia comunista cerceavam viagens, contato com o Ocidente e a liberdade de expressão. Talvez por isso, o hoje reconhecido e multipremiado Polanski enxergava a capital francesa como “um lugar que era obrigado a reconquistar”. E aquele foi de fato o seu destino imediato depois da morte de Stalin e do início de um processo de flexibilização política.

No documentário de Alê Primo há uma longa entrevista com o diretor, feita no Brasil. Aquela não foi a primeira viagem de Polanski ao País, como ele mesmo coloca em determinado trecho. Ele e Jack Nicholson já passaram o carnaval em terras brasileiras, nos anos 70. Caetano Veloso lembra de um episódio em que eles se encontraram, na Bahia, num dia em que a energia elétrica falhou. Ugo Giorgetti coloca que o grito mais impressionante que já ouviu no cinema foi em um filme do diretor. Cacá Diegues diz como ficou impressionado logo com o primeiro filme de Polanski, Faca na Água, e sua modernidade.

O filme reúne trechos de quase toda a filmografia do cineasta. Segundo o diretor Alê Primo, “de toda filmografia de Polanski, apenas quatros curtas não estão no documentário, por isso talvez esse seja o trabalho biográfico mais completo feito até hoje sobre a vida do cineasta franco-polônes. E, vale frisar, feito aqui no Brasil”.

Polanski fala de sua trajetória – pessoal e profissional. Conta sobre a Escola de Lodz, que freqüentou na Polônia, e seus primeiros exercícios cinematográficos. Assassinato (1957), sua primeira experiência com a câmera, é exibido na íntegra no documentário de Alê Primo; há ainda imagens de Sorriso (1957), Vamos Arrombar a Festa (1957), Dois Homens e um Guarda-Roupa (1958). Foram sete filmes realizados por ele enquanto ainda era estudante de cinema.

O cineasta fala também da sua mudança para Londres, numa época em que Beatles e Rolling Stones estavam no auge. Comenta sobre a realização de Repulsa ao Sexo (1965) e a participação de Catherine Deneuve; fala sobre Armadilha do Destino (1966) – “como nós jovens cineastas imaginávamos aquela época” – e sobre A Dança dos Vampiros. O diretor comenta também sobre O Bebê de Rosemary, Macbeth, Chinatown, O Inquilino, todos rodados nos anos 70. Trechos de todos esses trabalhos são exibidos.

Até mesmo sobre a morte de Sharon Tate, Polanski fala. Comenta sobre a tragédia da volta de sua mulher (e atriz) para Los Angeles alguns dias antes dele (ambos estavam filmando em Londres) pelo fato dela estar quase no oitavo mês de gravidez. Tate e outras três pessoas foram esfaqueadas e mortas pelo serial killer Charles Manson, em 1969.

E, já na parte final da entrevista, Polanski coloca o quanto de memória e lembranças afetivas suas estão em O Pianista (2002). Apesar do diretor não ser exatamente da Cracóvia, onde se passa o longa, ele sentiu e sofreu, assim como os personagens, os horrores do Holocausto. De família judia, esteve nos campos de concentração junto com seus pais. Sua mãe faleceu num deles.

Roman Polanski estréia na 33ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Ficha Técnica

Brasil, 52 min, 2009

Direção e entrevista: Alê Primo

Texto: Marcelo Rubens Paiva

Realização: SESCSP Gerência de Audiovisual

Idealização: Silvana Morales Nunes

Produção executiva: Regina Gambini

Produção: Jane Sucena

Direção de fotografia: Edson Bello

Edição e finalização: Anderson de Freitas

Produção de finalização: Danilo Concilio

Depoimentos: Roman Polanski, Hector Babenco, Ugo Giorgetti, Cacá Diegues, Caetano Veloso e Gilberto Gil.

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Aliás, sobre a peça A NOITE MAIS FRIA, o amigo MARCELO MIRISOLA escreveu na sua coluna do site Congresso Em Foco.

http://congressoemfoco.ig.com.br/coluna.asp?cod_canal=14&cod_publicacao=30187

Tantas observações… Gostei, MM. Reproduzo aqui alguns trechos. E coloco uma foto da PAULA COHEN em foco, pra todos se deliciarem.

A noite mais fria do ano, no palco e na vida

“Mulher é um bicho complicado. Nasceu – eu acho, e o Marcelo Rubens Paiva sabe disso – para a metalinguagem, para o além… E viva Nelson Rodrigues!”

Metalinguagem levada a sério é um porre. O legal é desacreditar nos grilhões, tanto faz se forem físicos ou metafísicos: viver é um absurdo, atravessar ruas e amar as mulheres também. É um pouco disso que resulta a peça de Marcelo Rubens Paiva. Vale dizer que ele não correu risco nenhum de se desfazer na geléia metalinguística porque, em primeiro lugar, soube escolher um elenco muito engraçado (tão ou mais descomprometido do que ele nessa viagem dentro da Noite mais fria do ano) e, depois, porque ele não seria besta de se meter a Pirandello nessa altura do campeonato. Me senti em casa. Quase na coxia jogando pôquer com os atores: aliás, aqui vai uma sugestão, essa “cena” poderia ser incorporada nos próximos espetáculos.

Bem, vou falar um pouco da peça dentro das peças. A primeira parte, se é que podemos fazer essa divisão, acontece num quiosque localizado provavelmente no Leblon, posto 12. Trata-se do diálogo dos cornos. Caio, ou Mário Bortolotto, é o recém-demitido editor de fotografia apaixonado pela linda mulher do bundão interpretado por Alex Grulli, imediato subalterno que foi promovido de uma só vez a corno do ex-chefe e ao cargo do mesmo, se é que entendi direito.

De qualquer forma, não importam os cargos e as chefias, mas os chifres da história. Ao fundo, temos o quiosque e os grunhidos do quiosqueiro mais engraçado das praias da Zona Sul, Hugo Possolo. E ao fundo do fundo, o barulho do mar e os ecos da mulher, Paulinha Cohen ou Carol que, desde antes de entrar em cena, já subtrai os corações, as mentes e os testículos de quem os têm e se dispõe a imaginá-la através do embate marido versus amante, cama versus alcova. Vejam só.

Eu nunca havia reparado no quanto a Paulinha Cohen é boa atriz, além de ser muito gostosa. Carol beija mal. Esse detalhe é a marca do autor. E, além de beijar mal e presumivelmente trepar feito uma diaba, Carol foi pensada para habitar a supracitada metalinguagem com desenvoltura, graça e conhecimento de causa. Porque, afinal é uma mulher, e o terreno delas é este: o enfumaçado, o vago, o lugar nenhum e a confusão, o lusco-fusco e a incontinência, o lá e cá.

No decorrer da peça ela vai ganhar um olho roxo. Merecido. E “sem querer-querendo”, Carol pede mais porrada, o tempo todo.

Não seria exagero se eu dissesse que Carol é a síntese das fêmeas que Marcelo Rubens Paiva arregimentou nos seus livros e – imagino – ao longo de sua vida de Don Juan. A pergunta é: o que o autor, nesses tempos gays e politicamente corretos em que vivemos, poderia pretender com essas espécies, macho e fêmea, ambas em extinção?

A resposta é: MRP ateia fogo no que sobrou do cirquinho da razão masculina, bate no peito e devolve a banana para os gorilas priápicos, animais em extinção (eu me incluo) que agonizam na plateia. De onde se conclui que essa é, sobretudo – antes de ser metafísica –, uma peça mamífera. E deliberadamente machista, naquilo que esse ultrapassado conceito poderia ter de mais engraçado, datado e, pasmem, humano. Vai fazer o quê? Tentar entender a mulherada?

Só o Marcelo Paiva que se atreve – além de autor, também dirige a peça. Na segunda parte, a adúltera ressuscita de um tiro acidental e macarrônico levado no final do primeiro ato. Vou chamar de primeiro ato, mas não é. Enfim, vale que Carol volta em carne e osso e trajes sumários ao palco, dessa vez como a mulher do ex-quiosqueiro. Que agora, por sua vez, se transforma em fotógrafo e editor de fotografia (dois em um), além de ser o Hugo Possolo. Nesse instante delicado do espetáculo, quem “entende” as mulheres dá uma colher de chá para a ontologia e para a metalinguagem.

Um dado. O ramo central da metafísica chama-se ontologia. De um ponto de vista feminino, digamos assim, essa excentricidade filosófica tenta decifrar em quais categorias as coisas estão no mundo e quais as relações dessas coisas entre si. Uma voltinha no shopping com uma mulher do tipo da Carol é o suficiente para esclarecer a existência e a natureza do relacionamento entre essas coisas (bolsas, sapatos, perfumes) e suas propriedades. Nem vou falar da musse de chocolate. Mulher é um bicho complicado. Nasceu – eu acho, e o Marcelo Paiva sabe disso – para a metalinguagem, para o além.

No caso da Carol (um tipo verossímil, diga-se de passagem), esse “além” inclui obrigatoriamente o gosto de levar umas bolachas. Há muito desisti de entendê-las. Mas o Marcelo Rubens Paiva sabe que os elementos “mulher” e “outras dimensões” estão diabolicamente imbricados. E é aí que a Noite mais fria do ano esquenta pra valer.

No momento mais perigoso, quando os laços da metalinguagem estão afrouxados, soltos, na hora em que a peça corre um risco iminente de virar uma chatice pirandelliana, bem, nesse momento, Hugo Possolo abre a champanhe da Noite mais fria do ano, que, para o alívio da macacada, vira uma festa dos atores e da atriz em cena. Teatro. Ou melhor, circo. O habitat de Possolo por excelência. Marcelo Rubens Paiva, insisto, caprichou na escolha do elenco. Caramba, Possolo é perfeito para esse papel, como ele é engraçado! Por Deus, como Paula Cohen é gostosa.

Tenho de confessar: tive 45% de ereção na cena em que Paula-Carol vai e volta do banheiro – cada vez mais nua no seu retorno, fazendo um strip nada metafísico e completamente disléxico, ah, que delícia quando ela paga umas tetas para a plateia e desafia, com suas conjecturas histéricas e inapelavelmente femininas, a suposta rival, uma advogada criminalista que existe/não existe do outro lado da linha do telefone. A cada vitória no campo das chantagens, uma lingerie a menos.

Taí a grande engenharia do Marcelo Paiva, o falso machista que entende de mulheres como poucos. A meu ver, o strip disléxico de Carol-Paulinha Cohen é o ápice do espetáculo. Tenho a impressão de que a mulherada vai adorar essa Noite mais fria do ano, sobretudo as histéricas, porque as normais irão para casa com a sensação de que ainda podem – e devem e precisam – levar mais umas bolachas. Viva Nelson Rodrigues!

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