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Zona Verde

Luiz Zanin Oricchio

19 de abril de 2010 | 08h55

Bush ordenou a invasão do Iraque em 2003 na busca de armas de destruição em massa. Mero pretexto, como depois ficou evidente. A jogada chega com alguns anos de defasagem ao cinema de ficção com este Zona Verde, de Paul Greengrass. Na história, Matt Damon é um desses oficiais encarregados de encontrar as armas que teriam sido detectadas pelo Pentágono. Em busca dessa fantasia, Miller descobre coisas com as quais não sonhava.
Esse é o plot simples de uma história complexa, pois envolve geopolítica e a modalidade contemporânea de intervenção americana em outros países. Em certo sentido, esse filme é mais um filhote do 11 de Setembro, tema não estranho a Greengrass, que retratou o dia fatídico da história americana em Voo 93, aquele avião que deveria se espatifar sobre Washington, mas lá não chegou porque, presume-se, houve reação dos passageiros a bordo.
Quem viu esse filme e outros filmes do diretor sabe o que deve esperar – um tratamento adulto do tema, vestido porém como filme de ação. Greengrass pensa através do movimento. Do movimento frenético. Não existem pausas para reflexão, ou apenas muito poucas. É pauleira quase o tempo todo. E isso talvez entre em dissonância com uma trama que, na verdade, não é tão simples assim e exigiria menos velocidade para ser assimilada. Por exemplo, se Miller começa a desconfiar que ele e seu povo entraram numa canoa furada, é apenas através da associação com um cético veterano da CIA que começará a ver mais claro. O complô todo não fica evidente.
Através desse filme de ação inteligente, é toda uma página da política externa norte-americana que se vê questionada. Montar uma farsa para derrubar um ditador e colocar em seu lugar um governo títere até contar com a conivência da imprensa são práticas que de fato foram adotadas pelo governo dos EUA.

O personagem principal é aquele protótipo do militar que sofre uma modificação pelo que descobre. Greengrass usa para o papel seu ator-fetiche, Matt Damon, que vai bem, mais uma vez. Ele se adapta à perfeição ao papel de alguém que sai em busca de alguma coisa e encontra outra, para sua própria perplexidade. Miller encarna também um tipo ideal do imaginário americano: aquele que mantém sua autonomia e liberdade de pensamento, usando-as até mesmo contra a disciplina e a hierarquia. Uma alegoria da democracia, aquele sistema que, como dizia Churchill, é o pior de todos – com exceção dos demais.

(Caderno 2, 17/4/10)

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