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Meu amigo Zé Onofre

Luiz Zanin Oricchio

19 de maio de 2009 | 20h15

Acabo de escrever uma materinha para o jornal comunicando a morte de José Onofre, que foi nosso editor no Caderno 2 no final dos anos 80, começo dos 90. Zé, que se foi com 66 anos, era um talento raro, dono de um texto como é difícil se ler hoje em dia na imprensa. Não gosto de ficar tecendo loas porque, no Brasil, morreu vira santo, e o Zé nada tinha de santo, muito pelo contrário. Mas foi uma pessoa que marcou muito aqueles que com ele conviveram. Devo demais ao Zé.

Em primeiro lugar, porque foi por sua mão que entrei para o jornalismo. Fui indicado a ele por meu amigo José Paulo Kupfer, que na época trabalhava no Estadão. Eu e o Zé não nos conhecíamos pessoalmente e marcamos um encontro para conversar. Seria no Restaurante Rodeio, que o Zé usava como seu escritório. Levei uns textos que havia escrito para outros jornais, mas ele nem quis ver. “Leio depois”, resmungou. Estava na “sua” mesa e me perguntou o que preferia beber: “Uísque ou bourbon?” Traçamos um Jack Daniel’s, aproveitando o tempo frio. E conversamos sobre tudo: política, mulheres, filmes, livros, o que vinha à cabeça. Era inteligente, bem-informado, espirituoso, às vezes sarcástico, nada politicamente correto. No final da madrugada, ao me despedir, já meio alto, perguntei: “Você vai marcar algum teste para mim?”. Ele me olhou com aquele mau humor de gaúcho de Bagé: “O teste já acabou. Aparece aqui amanhã à noite para a gente falar de salário”. E foi isso.

Nos meses seguintes, fiz com o Zé o meu curso de jornalismo acelerado. E esse é outro favor que fico devendo. Graduação e pós-graduação nuns seis meses. Não poderia ter sido melhor. O Zé Onofre era old school, tinha horror a frescuras, texto mal escrito e burocrático. O tempo do Zé foi o tempo da excelência do texto. Se o cara escrevia mal, ou floreava (o que é outra forma de escrever mal), estava fora. Era também cheio de idiossincrasias, tinha seus gostos, antipatias e simpatias. Mas, acima de tudo, tinha aquela qualidade indispensável a qualquer editor – personalidade. Sabia o que queria. Suas reuniões de pauta eram divertidíssimas – e breves, porque ele não tinha muito saco para aquilo. Preferia se reunir com os repórteres no bar, onde aí sim se podia discutir jornalismo com mais prazer e inspiração. Outros tempos. Naquela época fechávamos a edição e íamos para o boteco, em geral para o Bar do Alemão, na Avenida Antártica. Hoje a turma segue direto para casa. Ou vai malhar na academia.

Cedo o Zé saiu do jornal, numa mudança de cúpula. Voltou para o sul, mas depois fez o caminho de volta para São Paulo. Víamo-nos de vez em quando, mas depois os encontros rarearam quando a saúde dele declinou. Trocamos alguns e-mails, mas o Zé não gostava desse meio de comunicação. Taciturno como os caubóis que ele admirava, gostava era de um papo econômico, olhos nos olhos, naquele encontro feliz entre um bar bem sortido e uma carteira recheada, como ele gostava de dizer. A saúde não permitindo, isolou-se.

Acompanhava a coluna que ele tinha na CartaCapital, Na Calçada da Memória, na qual escrevia sobre filmes, personalidades do cinema e DVDs. Lá, exercia sua preferência pelos westerns, filmes noir e de gângsteres, que era do que gostava para valer. Pelo que sei, Mino Carta lhe dava total liberdade para escolher o assunto, independente de lançamentos ou injunções comerciais.

O Zé deixa também um romance breve chamado Sobras de Guerra, que é muito, muito bom. Econômico, direto e seco como um tiro. Ou um soco. Foi um custo encontrar esse livro, editado em 1982 pela L& PM e hoje esgotado. É um noir ambientado no Brasil dos militares, se bem me lembro. Não tenho o livro, alguém me emprestou na época e o devolvi depois de ler. Precisa ser reeditado. Seria uma bonita maneira de homenagear a memória do Zé Onofre. Uma bela figura humana, que era como alguns vinhos: nada perfeito, mas dotado de personalidade forte. Alguém assim não se esquece.

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