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Zé do Caixão assombra em Veneza

Luiz Zanin Oricchio

30 de julho de 2008 | 15h53

E quem vai adentrar triunfalmente o Lido de Veneza este ano? Ninguém menos que José Mojica Marins, o Zé do Caixão, que terá seu novo filme, Encarnação do Demônio, exibido na sessão da meia-noite, fora de concurso, no 65º Festival de Veneza, que se inicia dia 27 de agosto.

”Realmente…, fiquei um pouco surpreso; já tinha ido a vários outros festivais, mas Veneza, junto com Cannes e Berlim, é um festival classe A”, disse Mojica ao Estado. E garantiu que estará no Lido, devidamente caracterizado como Zé do Caixão. ”Acho que eles terão uma surpresa, tanto com o filme como com o personagem”, diz.

Zé do Caixão não será a única presença brasileira no Lido. Julio Bressane, um habitué do festival, esteve em edições anteriores com Dias de Nietzsche em Turim e Cleópatra, lá estará de novo, agora em parceria de direção com sua mulher Rosa Dias, com A Erva do Rato, tendo Selton Mello e Alessandra Negrini no elenco.

Há ainda mais: a empresa dos irmãos Caio e Fabiano Gullane, que produziu o novo Zé do Caixão, entra com duas outras produções na mostra principal, a Venezia 65, na qual se disputa o cobiçado Leão de Ouro: Plastic City, dirigido pelo chinês Yu Lik-Wai; e Birdwatchers, do ítalo-argentino Marco Bechis (o mesmo de Garagem Olimpo).

Se um dos dois vencer, poderemos dizer que o Brasil finalmente terá ganho um Leão de Ouro? É matéria para debate. Mas, para Fabiano Gullane, a resposta é afirmativa: ”Não tenho dúvida de que, nesse caso, será uma vitória para o cinema brasileiro”, diz. ”Os produtores brasileiros evoluíram muito nos últimos anos, e isso se refletiu no aperfeiçoamento da direção, dos roteiros, do acabamento dos filmes”, afirma.

Isso posto, cabe perguntar sobre a natureza desses filmes que disputam o Leão de Ouro. Ambos são 100% rodados no Brasil. Em Plastic City, os Gullanes têm 60% do capital, os outros 40% divididos entre China e Japão. O elenco é misto, com participação dos brasileiros Tainá Muller, Antonio Petrin, Milhem Cortaz, entre outros. Na metade do tempo, o filme é falado em português; em 40%, em chinês, e 10% em inglês. ”Vamos combinar: é um filme globalizado”, diz Fabiano, rindo. E é mesmo, o que não impede que a parte nacional tenha entrado através das leis de incentivo.

Já Birdwatchers, que no site do festival aparece unicamente como italiano, parece ainda mais brasileiro que o anterior. O seu tema é a destruição cultural e física da etnia dos guarani-caiovás e, em parte, interpretado pelos próprios índios, que foram preparados pelo ”coach” Luis Mário, o mesmo que se ocupou dos meninos de Querô, de Carlos Cortez. Também inclui atores italianos e brasileiros conhecidos, como Claudio Santamaria e Chiara Caselli, Leonardo Medeiros e Matheus Nachtergaele. Foi rodado em Mato Grosso e é falado unicamente em guarani e português. Acontece que a Itália tem 80% do capital e o Brasil apenas 20%.

Portanto, antes de torcer, ou festejar, teremos de voltar a essa questão insistente e indigesta – o que é um filme nacional no mundo globalizado?

Mostra Oficial

THE WRESTLER, de Darren Aranofsky (EUA)

THE BURNING PLAIN, de Guillermo Arriaga (EUA)

IL PAPÀ DI GIOVANNA, de Pupi Avati (Itália)

BIRDWATCHERS, de Marco Bechis (Itália)

L”AUTRE, de Patrick Mario Bernard e Pierre Trividic (França)

HURT LOCKER, de Kathryn Bigelow (EUA)

IL SEME DELLA DISCORDIA, de Pappi Corsicato (Itália)

RACHEL GETTING MARRIED, de Jonathan Demme (EUA)

TEZA, de Haile Gerima (Etiópia, Alemanha, França)

PAPER SOLDIER, de Aleksei German Jr. (Rússia)

SÜT, de Semih Kaplanoglu (Turquia, França, Alemanha)

ACHILLES AND THE TORTOISE, de Takeshi Kitano (Japão)

PONYO ON CLIFF BY THE SEA, de Hayao Miyazaki (Japão)

VEGAS: BASED ON A TRUE STORY, de Amir Naderi (EUA)

THE SKY CRAWLERS, de Mamoru Oshii (Japão)

UN GIORNO PERFETTO, de Ferzan Ospetek (Itália)

JERICHOW, de Christina Petzold (Alemanha)

INJU, LA BÊTE DANS L”OMBRE, de Barbet Schroeder (França)

NUIT DE CHIEN, de Werner Schroeter (Fr., Al., Port.)

GABBLA (INLAND), de Tariq Teguia (Argélia, França)

PLASTIC CITY, de Yu Kik-wai (Brasil, China, Hong Kong, Japão)

A forte presença da Itália na competição

A mostra competitiva do mais antigo festival do mundo mantém o perfil adotado pelo diretor Marco Müller em seus quatro anos de gestão – forte presença norte-americana, asiática e européia, e ausência quase completa do cinema latino-americano. Desta vez, uma novidade, se é que o termo cabe – vários filmes italianos em competição, o que levou jornais do país, como o La Repubblica, a falarem em ”resgate do orgulho nacional”. De fato, nas últimas edições, as produções locais têm entrado na condição da patinhos feios, que se inscrevem apenas para marcar presença e testemunhar os outros serem premiados. Agora, os italianos confiam no desempenho de filmes como Un Giorno Perfetto, de Ferzan Ozpetke, ou Il Papà di Giovanna, do estimado Pupi Avati.

O curioso é que um dos italianos mais cotados tem título inglês, é dirigido por um argentino que fugiu para a Itália durante a ditadura militar em seu país, é rodado no Brasil e falado em português e guarani – trata-se de Birdwatchers, literalmente ”observadores de pássaros”, e fala do extermínio dos guarani-kaiowás no Mato Grosso. A delegação do filme em Veneza, informa o produtor Fabiano Gullane, incluirá seis índios que, além de apresentarem a obra e falarem dos seus problemas, ainda entrarão em contato com ONGs italianas de proteção a etnias em via de desaparição. Será um acontecimento.

No mais, deve-se destacar a presença de nomes conhecidos como Jonathan Demme (com Rachel Getting Married) e Takeshi Kitano (com Achiles and the Tortoise, sua visão pessoal da fábula de Aquiles e a Tartaruga). Kitano é outro habitué do Lido e já levou um Leão de Ouro por Hana-Bi – Fogos de Artifício. Barbet Schroeder (de O Advogado do Terror) lá estará com seu Inju, la Bête dans l”Ombre, representando a França. E o mexicano Guillermo Arriaga, roteirista famoso dos filmes de Alejandro Gonzáles Iñárritu (Babel, Amores Brutos), faz sua estréia na direção com The Burning Plain, uma produção norte-americana.

Resta acrescentar que, na sessão fora do concurso, o brasileiro Encarnação do Demônio será exibido na mesma mostra dos novos filmes de Abbas Kiarostami, Manoel de Oliveira, Jia Zhang-Ke e dos irmãos Coen. Melhor companhia Zé do Caixão não poderia desejar.

(Caderno 2, 30/7/08)

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