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Zé Caixão renasce em Paulínia

Luiz Zanin Oricchio

14 de julho de 2008 | 18h14

Uma semana atrás, no coquetel de abertura do 1º Festival Paulínia de Cinema, um dos concorrentes confidenciou ao repórter do Estado: “Não tenho a menor esperança de ganhar: não tem para ninguém, o Mojica vai ganhar o prêmio de melhor filme.” E não deu outra. Encarnação do Demônio, volta às telas do personagem Zé do Caixão, criado pelo cineasta José Mojica Marins, ganhou o troféu principal da mais nova mostra do calendário de festivais brasileiros.

Além do primeiro prêmio, o longa de Mojica ainda levou os troféus Menina de Ouro de montagem (Paulo Sacramento), fotografia (José Roberto Eliezer), trilha sonora (André Abujamra e Márcio Nigro), direção de arte (Cássio Amarante)e edição de som (Ricardo Reis). Contente, Zé do Caixão, devidamente paramentado, subiu ao palco para receber todos os prêmios. No último, que o consagrava, disse: “Hoje não é dia de rogar praga. Desejo que todos que saiam de casa voltem para casa, que é a melhor coisa que se pode desejar.”

Entre os agradecimentos, Mojica não se esqueceu de citar sua jovem mulher “que, com milhares de baratas, deu sua contribuição ao filme”. Mojica referia-se a uma das cenas mais repugnantes, quando uma das personagens, vivida por Lena Dark, tem seu rosto mergulhado num tonel repleto até a tampa com baratas, bem vivinhas e ativas.

Se o gosto do filme, e de quem o escolheu como melhor do festival, pode parecer bem duvidoso a esta altura do campeonato, o certo é que Encarnação do Demônio é obra de ótima feitura, o que, em parte, justifica a fileira de troféus técnicos que arrebatou. A questão é saber se a soma de proezas técnicas faz um grande filme, discussão para mais de metro.

Com tantos prêmios para Encarnação do Demônio, sobrou pouca coisa para os outros. O outro inédito da competição de longas de ficção, Feliz Natal, ficou com o prêmio de diretor (Selton Mello) e dividiu o de atriz coadjuvante entre Graziella Moretto e Darlene Glória. Levou ainda uma menção especial para o garoto Fabrício Reis. Os Desafinados, de Walter Lima Jr., ganhou o Prêmio Especial do Júri, ator coadjuvante (Ângelo Paes Leme) e atriz (Cláudia Abreu). Pequenas Histórias ficou com roteiro (Helvécio Ratton) e ator (Paulo José). Onde Andará Dulce Veiga ficou com figurino (Fábio Namatame). O único que nada recebeu do júri foi Nossa Vida Não Cabe Num Opala.

Em Paulínia, os documentários têm premiação à parte. Ganhou, nesse segmento, Simonal – Ninguém Sabe o Duro Que Dei, de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal. O Prêmio Especial do Júri foi dividido entre o extraordinário Iluminados, de Cristina Leal, e Castellar de Nelson Dantas no País dos Generais, inventivo filme de montagem de Carlos Alberto Prates Correia – e vencedor do Festival de Gramado do ano passado.

Entre os curtas nacionais, venceu o criativo Dossiê Rebordosa, de César Cabral, e, entre os curtas regionais, o melhor foi A Vaca, de Marcelo Reginaldo de Menezes, que ainda levou os prêmios de roteiro e direção.

O júri popular também fechou com A Vaca como melhor curta. Dividiu o prêmio de curta nacional entre Dossiê Rebordosa e Viva Maria. Elegeu Simonal como melhor documentário, coincidindo com o júri oficial, mas preferiu dar o troféu de ficção para Alucinados, de Roberto Santucci. Já os jornalistas “especializados” concordaram com o júri oficial e elegeram melhor longa Encarnação do Demônio e melhor curta Dossiê Rebordosa.

SAGRAÇÃO DE MOJICA, PROMESSA DE SELTON

Paulínia está sendo visto como uma pedra preciosa pela gente do cinema brasileiro. Sintoma disso foram os vários manifestos, lidos durante a cerimônia de premiação, pedindo que não haja interrupção de atividades na próxima administração do município. O temor se justifica, pois continuidade não faz parte dos hábitos políticos nacionais. Mas, enfim, será difícil desmontar obra de tamanha envergadura, formada por um monumental cine-teatro de 1.350 lugares, uma escola de cinema, uma film commission, e investimentos em vários projetos de filmes. Em se tratando de Brasil, no entanto, sempre se pede cautela.

Quanto ao festival em si e sua premiação: a vitória de Encarnação do Demônio é a consagração de uma operação-resgate levada a cabo para tirar Mojica Marins do limbo. Diretor de cinema popular muito conhecido nos anos 60 e 70, Mojica nunca foi muito levado a sério por parte da crítica. Viam-no como personagem folclórico, engraçado, ator e diretor de filmes trash. Sua presença na TV tornou-o conhecido mesmo de quem não freqüentava salas de cinema. No entanto, sempre houve quem o tivesse como mestre e inventor, como o cineasta Carlos Reichenbach, e parte da crítica, esta mais chegada e formada no cinema dito marginal. Hoje, Mojica supera a pecha de trash e torna-se cult. Ganha, com Encarnação do Demônio, sua produção mais bem cuidada e rica, com beneplácito até mesmo da Fox Filmes e dos irmãos produtores Caio e Fabiano Gullane. Mas o mistério continua. Talvez a razão do fascínio por seus filmes e sua figura deva ser buscada mais numa psicologia do gosto excêntrico que em argumentações de ordem cinematográfica.

A outra atração do festival foi a estréia na direção de Selton Mello, Feliz Natal, que é, como todo primeiro filme, uma tentativa de abarcar a totalidade, somar influências, preocupações e firmar a visão de mundo do autor iniciante. Pode ficar um pouco sobrecarregado por isso. Mas é um trabalho arrebatador, mesmo em seus excessos, retratando uma família disfuncional na qual pontifica a mãe, interpretada por uma Darlene Glória que não atuava tão bem desde seu papel, histórico, em Toda Nudez Será Castigada, adaptação de Arnaldo Jabor para o texto de Nelson Rodrigues. O trabalho fotográfico de Lula Carvalho é notável, um real exercício de linguagem cinematográfica. Enfim, Feliz Natal poderia perfeitamente ter vencido o festival. Acontece que Selton é ator de sucesso. E o êxito, no Brasil, não se perdoa facilmente.

(Caderno 2, 14/7/08)

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