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Whiplash, a militarização da música

Luiz Zanin Oricchio

10 Janeiro 2015 | 20h07

Rapaz decide tornar-se um grande baterista. Para isso, procura a
melhor escola de música de Nova York e submete-se a um mestre
perfeccionista, violento e sádico. Eis aí o mergulho de Whiplash – em
Busca da Perfeição no mundo do jazz.

O subtítulo brasileiro não está aí por acaso. Andrew Neiman (Miles
Teller) é um jovem ambicioso que persegue a perfeição. Para seu azar,
ou sorte, depara-se com um professor cujo padrão de exigência nunca é
satisfeito – Fletcher (J.K. Simmons). O relacionamento entre ambos é
um embate. E, nesse sentido, Whiplash é muito mais um filme sobre a
competição do que sobre a música. Embora nele haja muita música e de
excelente qualidade, pela estrutura poderia ser uma história de
beisebol, basquete ou futebol americano. Daria no mesmo.

A ideia que ronda a cabeça do diretor Damien Chazelle, em seu segundo
longa-metragem, é a de que vale tudo na busca por essa hipotética
perfeição. Estímulos, elogios e tapinhas nas costas só atrapalham. A
ascensão ao cume só é possível por uma pedagogia da porrada,
construída à base de pressão, tabefes para marcar o ritmo, e sangue,
fluido que se vê com inusitada frequência e quantidade em obra
pretensamente musical.

O que se pode dizer é que a excelência em qualquer arte só se atinge
mesmo à custa de imenso sacrifício. Não se sabe como Furtwangler ou
Karajan ensaiavam suas orquestras, mas não deviam ser muito mais
gentis que o celerado Fletcher. Só que este tem um lado caricato e se
esquece de detalhe que por certo não escapava aos maestros. A grande
música pode ser resultado de esforço e sacrifício, mas é também fruto
de inspiração, delicadeza, sentimento. E inteligência. No caso
particular do jazz, aspira a ser, no fundo, uma imensa experiência
libertadora.

Toda essa vertente mais sutil e espiritual da música encontra-se
ausente do aeróbico Whisplash. No entanto, o duelo entre aluno e
professor não deixa de ser empolgante, em especial pela qualidade dos
dois atores. A música que se ouve nos ensaios é formidável e, em
parte, foi composta especialmente para o filme. Mas é ao som do
clássico Caravan, de Duke Ellington, que acontece o melhor momento,
quando o duelo enfim se torna duo.

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