Watchmen: visual de impacto e um rosário de ideias confusas
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Watchmen: visual de impacto e um rosário de ideias confusas

Luiz Zanin Oricchio

06 de março de 2009 | 09h35

comics

Como o diretor é Zack Snyder (o mesmo de 300) já se antevia que provavelmente Watchmen teria grande impacto visual. E, nesse quesito, a adaptação para a tela da história em quadrinhos de Alan Moore não decepciona. Há mesmo sequências de tirar o fôlego, a começar pela primeira, que abre o filme com impacto e autoridade. Vejam e confiram.

Watchmen se desenvolve numa distopia (e de que outra maneira imaginar Nixon no poder por cinco mandatos consecutivos?), na qual permanece a ameaça da guerra nuclear e os ponteiros do tal relógio da meia-noite se aproximam de maneira alarmante. Nesse ambiente, um dos super-heróis, o Comediante (Jeffrey Dean Morgan) é assassinado e seus colegas resolvem deixar a aposentadoria para investigar o crime.

É curioso observar como, em Snyder, se cruzam as necessidades de produzir um bom blockbuster e as de veicular algumas ideias que tem em mente. Duas exigências em nada incompatíveis, por mais que se diga que o grande público não quer pensar enquanto come pipocas e delira com o que vê na tela. De modo que o visual de forte impacto não encobre aquilo que o filme teria de mais pretensioso, no bom sentido do termo: levar a uma reflexão sobre o mundo contemporâneo, ainda que a história se passe em meados dos anos 80.

Entre essas boas ideias, que vêm da própria graphic novel, diga-se, está a de super-heróis decaídos, viciosos, dos quais o lúbrico Comediante é apenas a versão mais caricata. De certa maneira, eles fazem lembrar os semideuses da mitologia grega. Seres poderosos, mas nunca perfeitos, sucumbem à vaidade, à ambição, à luta pelo poder, ao vício. São humanos, demasiado humanos, para pensar no Nietzsche popular e meio simplório que deve habitar a cabeça de Snyder.

Esse ideário parece um bocado confuso, se formos analisar o filme a sério. Parece não haver problemas em matar milhões de pessoas para manter um certo equilíbrio de poder, como verá o espectador. Mas chamá-lo de politicamente irresponsável seria dar a essas tramas soltas e pouco orgânicas uma colher de chá que elas não merecem. Em termos de entretenimento, vale por alguns bons momentos. Convém não queimar muitos neurônios com ele.

(Caderno 2, 6/3/09)

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