Walachai, terra distante
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Walachai, terra distante

Luiz Zanin Oricchio

26 de maio de 2013 | 22h12

 

Em alemão antigo Walachai significa terra distante. É também o nome de uma pequena comunidade de imigração alemã na serra gaúcha. Onde nasceu a diretora Rejane Zilles que volta à sua terra neste filme terno e, ao mesmo tempo, informativo sobre uma das vertentes da formação cultural brasileira.

Walachai e outras pequenas comunidades serranas ficam a cerca de 100 quilômetros de Porto Alegre. Tão próximas da metrópole, parecem, no entanto, saídas de outro tempo e de outro lugar. Essa atemporalidade é bem flagrada no documentário. Por exemplo, quando se nota que os habitantes, embora muitos deles já nascidos no Brasil, falam com certa dificuldade o português. A língua é o alemão. Ou um tipo particular de alemão. Uma espécie de dialeto, trazido de outras regiões e cozinhado aqui no hemisfério sul.

De tal modo que nem brasileiros nem alemães entendem direito a língua que se fala em Walachai. É quase um idioma fechado, uma variante do alemão culto e talvez formado por outras influências linguísticas.

Mas, claro, o dado linguístico é apenas um entre tantos aspectos deste filme terno e interessante. Há a memória ligada à língua, como os moradores lembrando da obrigatoriedade do ensino do português nas escolas, que passou a vigorar no governo de Getulio Vargas e, em especial, a partir de 1942, quando o Brasil posicionou-se em favor dos Aliados. A partir desse instante, italianos, japoneses e alemães moradores do Brasil passaram a ter problemas. Eram “inimigos” ou, pelo menos, suspeitos. E as escolas das colônias, que antes ensinavam nos idiomas de origem, tiveram de adaptar-se ao português. A realidade presente em Walachai mostra os limites dessa imposição. Em casa as pessoas continuaram a falar seu alemão particular e assim o transmitiram aos filhos.

Há também o lado rural, o apego que os habitantes têm à terra e a independência de quem não precisa prestar contas a patrões. Por outro lado, já vários moradores trabalham em uma fábrica de calçados, submetendo-se à disciplina laboral. As duas formas de trabalho convivem, mas o apego à independência, que parece ter os dias contados, ainda é uma característica dos pequenos proprietários.

Se um bom documentário também se faz pela escolha dos personagens adequados, pode-se dizer que Rejane foi feliz na eleição dos seus. A velha senhora que, aos 91 anos ainda toca os sinos da igreja e cuida do cemitério, o historiador informal que registra em cadernos o cotidiano da cidade, o casal de agricultores, a mulher que rompeu um relacionamento para não ter de deixar seu pedaço de chão – todos eles compõem um painel amoroso e multifacetado dessa pequena comunidade.

E há, claro, a presença da diretora, o “ponto de vista” do autor. Sempre se volta ao lugar de nascença com certa expectativa de que tudo continue na mesma. Somos, nesse aspecto, como crianças a exigir que as histórias sejam contadas sempre do mesmo jeito. Ora, as coisas humanas mudam, e nem sempre para melhor. Apesar do imobilismo aparente de comunidades como Walachai, algo se move e talvez a corrói. Delicada, Rejane registra indícios, quase sem comentá-los. Ora é fábrica que, apesar da perda de liberdade oferece compensações, ora são os mais jovens já atraídos por dimensões que a cidadezinha não oferece, ora é o avanço das propriedades maiores, que tira competitividade aos sítios de produção artesanal, base do sustento dos antigos moradores. É o registro delicado de algo que talvez não tenha tanto futuro assim.

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