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Voo raso

Luiz Zanin Oricchio

14 Fevereiro 2013 | 09h16

Ontem fui ver O Voo, de Robert Zemeckis, com Denzel Washington no papel principal. Havia boas recomendações. Algumas se cumpriram, outras não.

Como sabem, o filme não é indicado para quem tem muito medo de avião. Há um acidente, um pouso forçado, muito bem filmado, com direito a vários minutos de pânico no interior do aparelho enquanto o piloto tenta, desesperadamente, manter o bicho, digo a aeronave, sob controle. Em vão. Pousa num campo e, milagrosamente, a maioria das pessoas escapa com vida. Menos seis, dois tripulantes e quatro passageiros, que morrem no acidente. O piloto é Denzel Washington, em boa atuação.

Ele é visto nas horas anteriores ao voo, acordando de uma noite de sexo, álcool e cocaína, em companhia de uma das aeromoças do seu avião. E aí é que está a questão: Denzel é alcoólatra e cocainômano. Um tipo com o qual você não embarcaria num passeio de carro, quanto mais num jato comercial. Quando o acidente ocorre, ele estava numa ressaca monumental. Que combatia como todos os bêbados do mundo combatem uma ressaca: bebendo mais umas doses “para calibrar”.

Bom, foi o porre que causou o acidente? Não. Deram a ele um avião cheio de defeitos. Ele o controlou como o mais destro e experiente dos pilotos. Minimizou os danos como nenhum outro teria feito. É um herói. Porém um herói sob suspeita de ter praticado seu ato de heroísmo completamente bêbado.

Essa é a profunda originalidade do filme. Tivéssemos um acidente provocado por imperícia, devida ao álcool ou drogas, e depois a culpa, a perseguição ao (ir)responsável, etc, e teríamos um filme banal. Não. No caso, o piloto é um herói. Só que é um herói bêbado. E, portanto, caso isso seja provado, pode passar de herói a vilão em um ato. Afinal, alguém precisa ser responsabilizado (inclusive economicamente) pelas mortes ocorridas no acidente.

Até aí o filme caminha de maneira a mais interessante possível. Mas então ocorre algo que de maneira alguma é  novidade em Hollywood: os autores da história, o diretor, a produção, etc, passam a ter medo da própria originalidade. Passam a temer pelas consequências das suas próprias ideias. E, então, tudo começa a se perder, na desesperada tentativa de encontrar o meio de recolocar tudo nos eixos. Afinal, não deixaríamos o público com esse dilema sobre a personalidade do personagem de Denzel, não é verdade?

De modo que os desdobramentos finais são extremamente frustrantes para quem esperava de fato algum tratamento original da história. Deve ser muito triste, no fundo, participar de uma cinematografia, como a norte-americana, em que o medo da ousadia torna monótona e tímida a maior parte da produção.

Infelizmente, é o caso deste O Voo, que começa alto e termina raso e rotineiro. Não chega a ser um desastre, mas é um pouso forçado absolutamente desnecessário.