Volver às mulheres de Almodóvar
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Volver às mulheres de Almodóvar

Luiz Zanin Oricchio

09 Novembro 2006 | 21h57

A partir desta sexta você pode conferir o novo filme de Pedro Almodóvar, Volver. Eis aí a crítica que escrevi sobre ele. Boa leitura.

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Mulheres de Almodóvar, com Penélope Cruz à esquerda

Volver é o nome da canção que Penelope Cruz canta a certa altura do filme. Na verdade, quando ela o faz, com muita graça, a história já anda pelo fim. E fala disso, entre outras coisas, da experiência da volta. Só que o que acontece nessa mais uma vez inspirada história passional almodovariana não deixa de ser surpreendente. Ou seja, volta quem se supunha que não pudesse voltar.

Não existe nenhum enigma nisso, a não ser que se pense que pessoas que já morreram se tornam ausentes também no imaginário dos que vivem. Quer dizer, que não vivam como lembranças, ou como, por assim dizer, acidentes de percurso simbólico. Um pai muito importante, uma mãe marcante não desaparecem simplesmente porque deixaram de ter existência física. Estão presentes e determinam até certo ponto a vida das pessoas. É como se costuma dizer: muitas vezes os mortos governam os vivos.

Por isso, a primeira cena de Volver será num cemitério, onde mulheres limpam os túmulos dos seus mortos. Entre essas mulheres, as protagonistas, Raimunda (Penelope Cruz), sua filha adolescente Paula (Yohana Cobo) e sua irmã, Soledad (Lola Dueñas). Outras mulheres se agregarão, inclusive a musa do diretor, Carmem Maura, a estas neste filme ainda mais feminino e feminista do que os anteriores de Almodóvar, como se isso fosse possível. No universo de Almodóvar, os homens não têm vez, a não ser como figuras fracas, às vezes calhordas e opressoras.

Pode até ser um clichê, mas nem por isso parece menos verdadeiro – poucos cineastas, nenhum talvez, compreende a tal da alma feminina como Almodóvar. E, se poderia dizer, ninguém compreende com tanta profundidade seu papel social. Se entre elas existe rivalidade (e onde não existe, quando está em ação o ser humano), existe também solidariedade. Ou talvez a palavra mais exata seja outra: cumplicidade. É nesse mundo que Pedro Almodóvar se mexe melhor. No mundo das pequenas ações cotidianas, da cozinha, do salão de beleza, das roupas e dos enfeites, da televisão no centro da sala de visitas. Não são frivolidades – das ações e preocupações do dia-a-dia nasce a vida. A vida com sua intensidade.

E essa intensidade se expressa na linguagem cinematográfica adotada por Pedro Almodóvar há muito tempo. É o diretor das cores fortes, das músicas vívidas, das atrizes intensas, como Carmem Maura, Victoria Abril, Veronica Forché e, agora, Penelope Cruz. Penelope desabrochou sob a direção de Almodóvar. Deixou de ser aquela presença em cena enjoadinha e tornou-se uma mulher intensa, despachada, metida, enfim, uma mulher almodovariana. Ganhou com isso. E nós também.

Penelope ocupa o centro de uma história dominada pelo gênero feminino. Se você procurar com lupa poderá chegar à conclusão de que falta verossimilhança à essa história. Em Almodóvar sempre falta. Mas quem se importa com isso? O que interessa de fato é a tonalidade afetiva do que se põe em cena, do grande coração que tudo inventa e que a tudo preside. Essa a “verdade” de uma história inventada e estapafúrdia – a verdade dos sentimentos, que afinal é o que conta e não apenas para as mulheres.