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Voltaire e o pêndulo

Luiz Zanin Oricchio

13 de setembro de 2007 | 13h47

PARIS – Fui visitar Voltaire, meu primeiro herói intelectual. Quer dizer, fui ao Panteão, onde a sua tumba fica bem em frente à de Jean-Jacques Rousseau, sendo que os dois não se suportavam. Mas ninguém escolhe o endereço póstumo.

Voltaire me conquistou desde a primeira juventude, quando li duas frases dele em não sei qual biografia. Uma era aquela sobre não importar o quanto eu discordo do que você está falando, mas defender até a morte o seu direito de dizê-lo. Nunca vi melhor definição do que seja liberdade de expressão. A outra, era uma palavra de ordem “Écrasez l’infâme”, que eu me abstenho de traduzir para não ferir suscetibilidades, já que se refere à Igreja.

Depois de Voltaire, achei que um programa interessante para o emprego da inteligência disponível seria o pensamento anti-conformista. E laico, por definição. Mudei muito, mudou o mundo, mas acho que essa perspectiva geral permanece. Vai morrer comigo.

Mas, como ia dizendo, fui visitar Voltaire, Rousseau, Zola, Touissant l’Ouverture, Hugo, etc, quando vi que Ele estava lá, logo na entrada. Quem? O quê? Ele, o pêndulo, ou, com o devido respeito, o Pêndulo de Foucault, protagonista da experiência que prova a rotação da Terra em torno do seu eixo. Uma velha experiência científica, redescoberta por Umberto Eco que assim batizou o segundo dos seus romances de sucesso. Eco fala do pêndulo em sua antiga residência, o Institut des Arts e Métiers. Leio que está no Pantheon desde 1995, por motivo de reforma no Arts e Métiers.

E lá está ele, naquele lento oscilar, pendurado da cúpula do edifício (67 metros de altura), onde repousam os grandes franceses (na porta, a inscrição “Aux grands hommes, la patrie reconaissante”). Para lá e para cá, em lenta oscilação, e a cada ida e vinda, se deslocando um pouquinho, conforme se pode ver pelo círculo com as indicações em graus sobre o qual ele se move. A cada hora, ele se move de 11º para o lado? Ele? Não. Como está preso por uma ligação móvel à cúpula, ele se desloca sempre na mesma linha. O que se move é o Panteão, é Paris, o mundo. Somos nós que nos movemos, junto com a Terra, e achamos que é o pêndulo que se desloca.

Assim é a ciência, e o pensamento, de maneira geral. Uma negação do bom senso, do senso comum, das falsas evidências. Só se faz algum progresso com a negação sistemática dessa maneira tão “natural”de ver as coisas. Isso também tem a ver com Voltaire, e com todo o resto.

Fiquei muito tempo olhando para o pêndulo, e tentando entendê-lo com o olhar da mente, o olhar da razão. Me fez muito bem.

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