Viva Antonioni!
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Viva Antonioni!

Luiz Zanin Oricchio

16 Maio 2017 | 10h53

A divina Monica Vitti em ‘A Aventura’

 

Temos vivido dias de felicidade com a maratona Aventura Antonioni, no Cinesesc. No domingo, foram três filmes – O Grito, Crimes da Alma e As Amigas. Ontem, mais três – A Aventura, A Noite e O Eclipse. Lavam a alma, limpam os olhos, revitalizam a inteligência e a sensibilidade. (Inútil dizer que, no Brasil atual, precisamos ter a alma e olhos limpos, a inteligência e a sensibilidade aguçadas. Tudo nos desafia.)

A maior parte são filmes mais do que conhecidos. Vistos, revistos e admirados (mas eu não conhecia Crimes da Alma, um noir à la Antonioni, de 1950).

Fiquei feliz, em particular, de rever, depois de muitos anos, O Grito, filme tido como da fase mais “neorrealista” de Antonioni, mas que revela seus traços autorais então sendo definidos. É obra extraordinária, surpreendente, com seu “herói” vagando pela Itália miserável do após-guerra, de mulher em mulher, até o desfecho, brutal.

Ontem, a maratona foi dedicada à chamada “trilogia da incomunicabilidade”, embora Antonioni não gostasse do rótulo. Vê-los, um após o outro, é uma experiência e tanto. Imersão não apenas num cinema preocupado com o tema da alienação, mas com a invenção de formas narrativas. A Aventura, por exemplo, é inusitada. Em uma excursão de barco, uma das mulheres (Lea Massari) some de maneira misteriosa numa ilha vulcânica. A intriga, se o termo cabe, parte dessa ausência.

Abro um parêntese (ma non tropp). Vejam o que Carlos Drummond de Andrade escreve sobre A Aventura em seu O Observador do Escritório, um dos meus livros de cabeceira.

“L’Avventura, de Antonioni, no Art-Palácio. Sem dúvida um filme excepcional, mas que nos deixa insatisfeitos. A mestria técnica e a beleza das imagens servem a uma história que não chega a impressionar, como se faltasse um elemento de vida autêntica às personagens ou ao diretor que as movimenta. A busca de Ana, na ilha, não é uma busca, mas um ir e vir inconvincente. De resto, em nenhum momento do filme tive a sensação de busca. Antonioni descreve os movimentos do amor sem participar deles nem pretender, aparentemente, que os espectadores participem. Não obstante a extensão do filme e a monotonia de algumas cenas, mantive-me interessado – não sei como consegui. Talvez nos sintamos obrigados a admirar um criador de arte mesmo quando ele não nos satisfaz plenamente.”

Eis aí como podemos discordar amorosamente do nosso poeta predileto. Para mim, drummoniano de carteirinha, A Aventura reafirmou-se, na revisão de ontem, como uma completa e acabada obra-prima. O plano final, que não revelo, é um dos mais intensos e emotivos de toda a filmografia de Antonioni, feita muitas vezes de rigor e contenção cerebral. Neste, como nos outros, a figura luminosa de Monica Vitti.   

Hoje pretendo rever Passageiro, Profissão: Repórter, que termina com o mais fantástico plano-sequência da história do cinema (vá lá, empata com o de abertura de A Marca da Maldade, de Welles).

Num longínquo Festival de Gramado, tivemos o prazer de ouvir do próprio Antonioni como havia sido construído aquele plano, a longa sequência que começa na praça, atravessa as grades do quarto de um hotel e encontra em seu interior o personagem de Jack Nicholson.

Antonioni havia sido acometido de um AVC que o deixou sem fala nos últimos anos de vida. Nós perguntávamos, e ele respondia ao ouvido de sua mulher, Enrica Fico, a única que o compreendia. Ela então “traduzia” o que o marido havia dito.

Nesse mesmo festival, assistimos à projeção de A Noite, em companhia do próprio Antonioni. Rô e eu estávamos sentados bem atrás dele no Palácio dos Festivais em Gramado. E pudemos ver como o maestro chorou ao final do filme. Dá para esquecer uma coisas destas?