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Viva a Liberdade

Luiz Zanin Oricchio

13 de julho de 2014 | 23h37

Farsa política das mais inteligentes, Viva a Liberdade, de Roberto Andò, tem Toni Servillo no papel de Enrico Oliveri, secretário do principal partido de oposição na Itália.

Como as coisas não andam bem, e ele se sente sob tremenda pressão, Oliveri resolve dar um tempo. Reencontrar seu eixo, como se diz. Com seu sumiço, num momento crucial, seus assessores entram em desespero e buscam uma solução de emergência para suprir o desaparecimento do líder.

Seria quase redundante dizer que Servillo está bem no duplo papel que a história de Andò lhe oferece. Servillo está sempre bem, Melhor ainda: está sempre excepcional em suas atuações. É o principal ator italiano do presente. Basta vê-lo em filmes como O Divo ou A Grande Beleza, ambos de Paolo Sorrentino, por exemplo, ou em Gomorra, de Matteo Garrone, para se convencer do seu talento. Servillo é fera. Empresta uma intensidade tal aos personagens que os torna inesquecíveis, mesmo quando o registro não é realista. Ou talvez por isso mesmo.

Porque, como se sabe, a política, em boa parte, é uma arte da imagem. E da palavra. O político não precisa ser. Basta parecer. O que diz não precisa ser verdade, ou mentira. Basta que produza os efeitos desejados. Pode viver numa atmosfera de sonho, desde que convença seus eleitores a segui-lo nessa alucinação.

Nessa arte da ocultação/revelação, o que poderia acontecer se, por exemplo, um louco talentoso tomasse o lugar de alguém são, porém muito convencional? Não é impossível que, numa situação de caos, ou de estagnação, um pensamento original, por pouco razoável que possa parecer, seja mais eficaz que atitudes de rotina.

Essa adorável farsa política, muito bem filmada e interpretada, tem endereço certo: a medíocre Itália pós-Berlusconi. Levada ao fundo do poço pela longa presença do Cavaliere na liderança política, não sabe o que fazer depois de livrar-se dele. Cambaleia em crise permanente, sem ver mais alternativa do que apelar a burocratas da economia para sobreviver à estagnação.

Mas, pensando bem, Viva a Liberdade tem alcance maior, e se estende para além das fronteiras italianas. Faz a crítica mordaz da atividade política em geral, essa que não se renova há séculos, embora o mundo tenha mudado muito, e continue a mudar a cada dia. Falta à política, e aos políticos, imaginação para reinventar-se na luta, manutenção e uso do poder. Para que o poder não seja um fim em si, mas instrumento para realizar determinadas mudanças na sociedade.

Nessa comédia aguda e refinada, Andò faz mais pela reflexão sobre a indigência política da contemporaneidade do que vários ensaios de sociologia. E o faz com inteligência e senso de humor. O humor contido, se sabe, celebra a vitória do riso lúcido sobre a miséria do cotidiano.

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