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Viva a Itália!

Luiz Zanin Oricchio

09 de maio de 2013 | 17h26

O adjetivo “didático” tem conotação pejorativa quando aplicado a filmes de ficção ou documentais. Quem afirma que um filme é didático em geral quer dizer que é esquemático, explicativo demais, quando não maniqueísta e deformador de uma realidade muito mais complexa do que aquela que ele supostamente retrata. Não era esse o pensamento de Roberto Rossellini. Depois de haver se consagrado como pai do neorrealismo italiano, tornando-se diretor de sucesso internacional, além de ter se casado com Ingrid Bergman, Rossellini, no auge da fama, portanto, voltou sua carreira para a direção de filmes assumidamente didáticos. Obras que se propunham explicar algum tema ou traçar o perfil de alguma personalidade política ou do mundo do pensamento. Viva a Itália, que a Versátil agora está lançando, é um deles. Forma com outros dois, já lançados – O Absolutismo e O Renascimento – uma trilogia, A História no Cinema, agrupada em caixa pela Versátil.

Este terceiro filme trata de forma clara e explicativa do intrincado processo histórico do Risorgimento italiano, quer dizer da unificação dos vários estados em que a península era dividida até 1861, até sua consolidação num único estado soberano.

Mas, atenção: a didática de Rossellini não se desenvolve como uma aula fria e analítica a respeito de acontecimentos remotos e decisivos para seu país e para a conformação de toda a Europa. Com mão de ficcionista, empresta aos fatos cor e calor, paixão e sangue. Vida. Ainda mais porque o protagonista desses episódios é ninguém menos que a notável pessoa de Giuseppe Garibaldi, conhecido também entre nós por ter lutado na Revolução Farroupilha e se casado com uma brasileira, Anita.

Os fatos descritos por Rossellini mostram um Garibaldi já veterano de revoluções, depois de haver lutado na América, e agora empenhado na missão de unificar um país visto como um todo linguístico e cultural, embora nuançado por dialetos e costumes diferentes em suas várias regiões. Na época em que trava sua luta, a Itália dividia-se em oito Estados, sob domínio estrangeiro. O Vêneto, por exemplo, pertencia à Áustria, enquanto o Reino das Duas Sicílias era dominado pela dinastia Bourbon.

O espírito de unificação desperta em várias frentes e com inspirações diversas. Os personagens o enredo são Vittorio Emanuelle, rei sardo, que domina o Piemonte; seu ministro Cavour, e os republicanos Mazzini e Garibaldi, ambos com prenome Giuseppe. Rossellini escolhe um episódio emblemático no processo de unificação – a descida do revolucionário, com um exército popular de mil homens, de Gênova a Palermo, para libertar a Sicília. Ficaram conhecidos como “os mil de Garibaldi” e eram, na verdade, 1070. É, na opinião de historiadores, um desses episódios decisivos, que mudam o curso da História. Provavelmente, a descida do exército regular piemontês rumo a Palermo teria despertado fortes reações contrárias na Europa. Os mil de Garibaldi não chamaram tanto a atenção, pois se achava que seriam facilmente liquidados pelo exército dos Bourbons, maior e mais bem armado. O Reino das Duas Sicílias compreendia quase metade da península.

É, assim, sob o signo do heroísmo, que Garibaldi se junta aos insurrectos sicilianos e vence a sua guerra. Mas não a vence do jeito que gostaria. Por desprendimento, entrega o poder conquistado a Vittorio Emmanuelle. “Que a Itália se faça”, era sua divisa. Mesmo que fosse a Itália monárquica e não a republicana com a qual ele e Mazzini sonhavam. Mesmo que Roma e Veneza tivessem de ser deixadas para depois. Há uma passagem magnífica quando Garibaldi (Renzo Ricci) entrega o comando a Vittorio Emmanuele e sai de cena, tomando um barco. O cinema é assim, quando feito por quem sabe: todo um processo complexo ganha vida e sentido numa cena de poucos segundos.

Há outras sequências mais longas e igualmente extraordinárias, como a da batalha decisiva de Calatafini, na qual se afrontaram garibaldinos e bourbônicos. Rossellini filma a guerra com grande realismo, detalhadamente, e nos próprios lugares onde os fatos aconteceram. Sem contar com os efeitos especiais que dão hoje ares espetaculares mas também muito artificiais às cenas de guerra, Rossellini consegue um notável efeito de verdade nessas cenas rodadas de maneira artesanal.

Viva a Itália é um filme comemorativo, lançado em 1961, quando se celebravam os cem anos da unificação italiana. Não cede, porém, à mistificação histórica ou à hagiografia dos personagens. Contempla a confusa dialética dos fatos, que se produzem por contradições e raramente em linha reta. E retrata um Garibaldi humano, cheio de dúvidas e fragilidades, mas ao mesmo tempo generoso e politicamente lúcido.

Completam o DVD dois extras de grande qualidade e muito úteis para o espectador brasileiro, menos familiarizado com os fatos narrados do que os italianos. São duas longas entrevistas: Gian Luigi Rondi, crítico de cinema, fala sobre o trabalho de Rossellini, e o historiador da Universidade de Roma, Guido Pescosolido, tenta destrinchar o complicado processo histórico do qual Garibaldi foi um dos protagonistas. Viva a Itália, em seu conjunto, é uma bela e emocionante aula de História.

 

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