As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Viúvas

Luiz Zanin Oricchio

27 de dezembro de 2012 | 18h06

Ninguém pode dizer que a história de Viúvas não seja bem bolada. No longa do argentino Marco Carnevale, a veterana Graciela Borges é Elena, uma cineasta que no momento faz um documentário cujo tema são as várias formas de amor. Uma daquelas banalidades para TV. Está filmando quando lhe chega a má notícia – o marido passou mal e está internado, em estado grave, num hospital. Lá chegando, ela recebe outro choque. O marido foi levado por uma jovem amiga, Adela (Valeria Bertuccelli), que vaga pelos corredores, desconsolada, sem qualquer intenção de disfarçar o desespero. A esta altura, o leitor esperto já terá adivinhado do que se trata.

A novidade de Viúvas é tratar dessa questão delicada com alma aberta e livre de preconceitos. Bem, esta expressão “livre de preconceitos” precisa ser repensada. Ninguém é totalmente isento dessas ideias pré-concebidas que nos plantam na cabeça vida afora. Precisamos fazer esforço (às vezes hercúleo) para matizá-las e, no melhor dos casos, relativizá-las ou até vencê-las. Mas é difícil. Trabalho para uma vida inteira. Ainda mais, como no caso de Viúvas, quando envolve questões como fidelidade, traição, ciúmes e barreiras de gerações.

Dito desta forma, parece é pretensão demais tratar tudo isso num filme. Ainda mais quando Carnevale pretende calibrar seu foco num ponto qualquer entre o drama e a comédia. O que é possível (a chamada comedia all’italiana fez isso o tempo todo ), sem dúvida, mas exige um certo esforço. Talento. E inspiração. Carnevale se socorre de outra referência nesse quesito – Pedro Almodóvar. Bebe em algumas referências de base do espanhol. Por exemplo, através presença da transsexual Justina (Martin Bossi), que trabalha como doméstica de Graciela e dá graça e desfaçatez a um punhado de situações que, de outra forma, poderiam parecer sem sal.

De outro lado, a inspiração almodovariana aponta para uma cumplicidade entre mulheres que é o ponto sempre mais tocante nos filmes do espanhol. E que, muitas vezes, é atingido pela via do absurdo. Situações ilógicas, ou que desafiam a lógica fálica dos machões. Só que é bem difícil atingir esse ponto em que a estranheza parece não apenas razoável como necessária e tocante. Carnevale, através desse expediente, injeta ternura no filme, mas não consegue lhe dar verdadeira grandeza.

No todo, fica uma impressão de superficialidade. Tudo é simpático, enternecedor, às vezes engraçado, mas Viúvas não parece ter aquela característica aderente dos filmes realmente bons, que é de permanecer bom tempo com a gente, às vezes para o resto da vida. Não é o caso.

 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.