Vitória 2019: O seu amor de volta (Mesmo que ele não Queira)
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Vitória 2019: O seu amor de volta (Mesmo que ele não Queira)

Luiz Zanin Oricchio

26 de setembro de 2019 | 13h57

 

VITÓRIA/ES

Em sua segunda noite de competição, o Festival de Vitória apresentou o longa paraibano O Seu Amor de Volta (Mesmo que Ele não Queira). O diretor Bertrand Lira gosta de dizer que, ao contrário dos que pensam se tratar de uma ficção, o longa é, pelo menos, 85% documental. O resto é invenção. 

O que temos aqui? Algumas pessoas que consultam cartomantes e pais e mães de santo em busca do amor perdido. Lira montou um cenário, uma espécie de consultório sentimental onde os encontros entre gurus e desesperados se dão. Nele, vemos os especialistas em ação, jogadores de Tarô e búzios, leitores de bolas de cristal, cavalos de Exu e Maria Padilha. 

O ambiente é místico, porém sentimos o arrepio de um certo distanciamento irônico, como se a fé fosse vista pelos olhos de um materialista. Mas um materialista brasileiro, que pode crer no materialismo histórico e mesmo no dialético, sem abdicar de uma fezinha no jogo do bicho ou a bênção no candomblé. Somos feitos deste sincretismo mental e nossas grandezas e misérias andam por esse caminho tortuoso e cheio de bifurcações entre a fé e a razão. 

Uma certa ambiguidade entre o que é verdade e ficção surgiu desde a primeira apresentação do filme, ano passado o Fest Aruanda, na Paraíba. Em especial, porque envolve, entre outras personagens, duas atrizes conhecidas – Marcélia Cartaxo e Zezita Matos, que já citamos no post anterior, sobre Pacarrete. Zezita e Marcélia contam para a câmera suas experiências de vida e seus males de amor. 

Ora, quem conhece a cena cinematográfica, percebe logo que Marcélia fala de si, mas também se expresssa pela boca de sua primeira personagem famosa, Macabéa, de A Hora da Estrela, texto de Clarice Lispector adaptado pela cineasta Suzana Amaral. E que valeu a Marcélia um Urso de Prata de melhor interpretação no Festival de Berlim de 1986. 

Seria, então, um Jogo de Cena, para evocar a obra-prima de Eduardo Coutinho, com sua proposital confusão entre depoimentos reais e recriações desses depoimentos pelas vozes de atrizes conhecidas e desconhecidas?

Sim, em parte é isso. Mas acontece que o depoimento de Zezita Matos é factualmente exato. Sem qualquer hesitação, ela fala do rompimento do seu casamento de 40 anos e da calamidade que este fato representou em sua vida. Marcélia não quis se expor da mesma maneira. Por isso, apelou para Macabéa, mas não se afastou da verdade, uma vez que Macabéa é um pouco ela própria e não apenas uma personagem interpretada por ela. Através da ficção, também falamos a verdade. E às vezes de maneira mais desabrida ainda. De te fabula narratur, etc. 

Assim também é com outro personagem do filme, o maquiador William Muniz. Ele esconde o nome do seu amado, um estivador do cais, atrás do pseudônimo “Pântano”. E ele próprio, William, se expressa por meio de uma personagem feminina interposta, à qual batizou de “Laura de Jezebel”. 

Assim também é com a trans Danny Barbosa, professora, que fala de sua vida mas também interpreta a personagem de Muniz, Laura de Jezebel. 

De qualquer forma, queira seu diretor ou não, O Seu Amor de Volta boia mesmo nessa atmosfera ambígua entre a realidade e a ficção. E é isso mesmo, no fundo, que o torna tão bom. Além de tudo porque trabalha num registro fotográfico bastante interessante, usa uma trilha sonora saborosa e uma ambientação bastante sugestiva, na zona portuária de João Pessoa. 

A partir dessa obra cinematográfica, somos estimulados a pensar sobre o que significam os males de amor, essas dolorosas feridas narcísicas, e por que as pessoas atingidas mostram-se sempre dispostas a qualquer coisa para trazer seu amor de volta. Por que se vai a uma cartomante, a uma mãe de santo, a um jogador de búzios? 

É que o amor parece feito dessa projeção de nós mesmos no outro; na relação com o imaginário, com a palavra e com a fé, talvez. Esses sensitivos de sucesso representam uma espécie de psicanálise dos pobres,  neste Brasil da carência material e espiritual. O Seu Amor de Volta capta tudo isso sem qualquer elitismo, com amor aos personagens e suas fraquezas, sem jamais olhá-los de cima, como bichos exóticos. Somos todos humanos, frágeis e dependentes dos outros, qualquer que seja a ideia ilusória que tenhamos sobre nós mesmos.

Curtas 

Uma razoável para boa seleção de curtas na primeira noite da competição nacional dessa metragem ( se bem que os curtas estão virando longas, um deles com até 28’ de duração). 

Ao contrário da tendência, Sangro (SP) dá o recado em enxutos 7’, a confissão íntima de uma pessoa portadora de HIV, ilustrada por animações inspiradas no famoso tríptico de Bosch, O Jardim das Delícias. 

Arquitetura dos que Habitam (ES) expõe os detalhes visuais de uma ocupação urbana, abordando a crucial questão da moradia. 

Doniara é uma ficção de Goiás com a personagem se preparando para um mundo sem água. Imagens deslumbrantes no início e depois apenas prolixidade. 

Assim como Os Mais Amados (ES), ficção bíblica sobre o apocalipse, com 28’ (!) de duração. 

Perpétuo (RJ) é também uma interessante incursão pela vida na zona periférica de Nova Iguaçu, que perde impacto pela falta de síntese. 

 

Tudo o que sabemos sobre:

Festival de Vitória

Tendências: