Vitória 2019: Mirante, os olhos sobre a cidade
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Vitória 2019: Mirante, os olhos sobre a cidade

Luiz Zanin Oricchio

28 de setembro de 2019 | 12h38

 

 

VITÓRIA/ES

Uma ruptura de ligamentos do joelho deixou o diretor Rodrigo John preso ao seu apartamento no 17º andar no centro de Porto Alegre. Como encher o tempo? Talvez usando o ponto de vista privilegiado e sua câmera para registrar o que se passava ao redor. Daí nasceu Mirante, documentário de observação que registra, sem narrativa em off, as mudanças na sociedade brasileira, que se inscrevem como cicatrizes no corpo das cidades. 

A influência, assumida, é o Hitchcock de Janela Indiscreta. James Stewart, de perna quebrada, passa a observar os vizinhos através de sua lente, até pressentir a possibilidade de um crime a ser cometido. 

O crime observado por Mirante não se desenha de maneira linear. Vemos imagens em uma vertigem caleidoscópica, mostrando a precariedade das relações, a solidão urbana, mas também a vitalidade do centro, empregados caminhando para lá e para cá, camelôs, moradores de rua que se abrigam do mau tempo. Mas também vão entrando, de maneira assimétrica, cenas de manifestantes, que dizem que não vai ter Copa, logo substituídas pelos pedidos de impeachment da presidente, dos fora-PT, das panelas batendo nas varandas, toda a preparação que deu no golpe de 2016 e na eleição de Bolsonaro. Esse desenho de pesadelo, repita-se, é montado de forma fragmentária.  

O diretor diz que essa opção foi consciente. “Há muitos filmes sobre o golpe que partem do caos e tentam encontrar uma ordem, uma lógica que leva ao desfecho. Eu tentei o contrário. Ver o caos se formando e registrar esse período de incertezas e desordem na sociedade.” É, de fato, uma opção das mais interessantes. Ainda mais quando certos elementos vão significando o que se passa na tela. A progressiva agressividade da polícia contra a população – sob aplauso de outra parte dos transeuntes. Imagens de antenas que se sucedem “porque a narrativa do golpe passava por elas”, diz o diretor. Urubus que pairam sobre a cidade, espreitando a carniça. Uma tempestade que se forma em nuvens negras e depois se abate sobre a cidade. É um pouco a imagem de um fim de mundo que se desenha no filme. O fim do Brasil. 

Selvagem

Selvagem, de Diego da Costa, evoca, em termos ficcionais, a luta dos estudantes secundaristas contra medidas do governo que queriam “reorganizar” as escolas. Em certo sentido, os secundaristas foram a oposição mais corajosa e efetiva à montagem do status quo. Não por acaso, o governo agora adota o projeto de militarização das escolas – forma de “matar no ninho” essa oposição juvenil. Mas, bem, isso é uma divagação. 

Em termos do filme, temos a personagem Sofia, que é ótima aluna e de repente vê-se obrigada a encarar um movimento em sua escola e decidir se adere a ele ou nao, inclusive contra a vontade do pai autoritário. O filme tem seus méritos, entre eles o de captar a pulsão juvenil em seu despertar para a política. Também em fazer da maioria dos personagens pessoas negras, incluindo a questão racial no subtexto desse filme sobre a participação essencial dos secundaristas na luta política – algo que é um pouco esquecido nas obras que tratam das lutas dos anos 1960, mas agora não pode ser ignorado. Até mesmo porque, no presente, os secundaristas ocuparam suas escolas e foram às ruas em defesa de suas ideias, enquanto os universitários permaneceram encastelados nos campi. 

Curtas

Algumas boas surpresas entre os curtas. Não vou nem falar de Guaxuma, a extraordinária animação que já passou por vários festivais e amealhou uma fieira de prêmios até agora. 

Riscadas (ES) mostra a ação de mulheres negras grafiteiras. Um filme preciso e econômico, que dá seu recado sem muitas firulas e bastante energia. 

Fartura (RJ) mostra a função das festas na confraternização e união das pessoas, em especial entre famílias negras. Diga-se: a afirmação da negritude está muito presente na seleção de obras deste festival. Prova de que nem todos se intimidam com as medidas disruptivas do governo federal. 

Negrume (SP) põe em cena a questão dos corpos negros e da diversidade sexual. Filme forte e rigoroso do ponto de vista estético. 

O Órfão. Também a questão da negritude e homossexualidade imbricada no tema da adoção, sobre o qual incidem os vários preconceitos da sociedade brasileira sob o rótulo: que tipo de criança a classe média branca adota? Esses paradoxos e contradições sao expostos a partir de um personagem de caráter firme e que parece entender perfeitamente o que está em jogo tanto na sua situação quanto na do casal que o adota e depois o rejeita. Lúcido. 

 

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