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Virginia Woolf no cinema

Luiz Zanin Oricchio

29 de março de 2011 | 20h41

Quem já teve contato com a prosa – abstrata e porosa – da inglesa Virginia Woolf já pode antever as dificuldades que seus livros propõem para adaptações ao cinema. No texto, as imagens estão implícitas nas palavras, mas devem ganhar, digamos assim, materialidade visual ao passar para a tela. Essa transposição, como a das águas dos rios, não se dá sem alguns problemas.

Se nem sempre a operação é simples, o desafio deve valer a pena pois vários dos seus livros foram parar no cinema, como são os casos de Mrs. Dalloway, Rumo ao Farol e, claro, o mais bem sucedido de todos, Orlando, que na versão brasileira ganhou o subtítulo óbvio de Mulher Imortal.

No filme de Marleen Gorris, Vanessa Redgrave interpreta Mrs. Clarissa Dalloway que, em seu monólogo interior, medita sobre a festa que está preparando, quando tudo é turbado pela aparição de um conviva inesperado, um conhecido muito íntimo de 33 anos atrás. Como se trata de uma meditação, o filme deve se valer de flash-backs e, desse modo, retornar ao tempo em que uma jovem Clarissa (Natasha McElhone) é cortejada por Peter (Alex Cox). Com suas óbvias limitações, o filme tem clima interessante.

Já Rumo ao Farol, de Colin Gregg, feito para a TV britânica, em 1983, passa por adaptação bastante fiel da obra original. Um ainda muito jovem Kenneth Branagh está no elenco.

Compreensivelmente, foi a versão de Orlando a mais bem sucedida entre as adaptações de Virginia Woolf para a cinema. Como romance de natureza mais narrativa, flui melhor na temporalidade linear do cinema. Dirigida por Sally Potter, tem em Tilda Swinton a intérprete ideal para a nobre que não morre jamais e ainda mostra possuir o dom da androginia. Nesse texto um tanto atípico no conjunto de sua obra, Virginia Woolf junta duas aspirações impossíveis do desejo humano – atravessar a barreira do tempo e a cruzar a fronteira entre os sexos. O texto é poderoso. Deu origem ao filme e transformou-se em peça teatral, dirigida, no Brasil, por Bia Lessa.

Mais recentemente, Virginia Woolf foi nome bastante comentado pelos cinéfilos como personagem de As Horas, de Michael Cunninghan. Cunninghan escreve um livro delicado e o mesmo se pode dizer da versão para o cinema de Stephen Daldry (o mesmo de Billy Eliott e O Leitor), realizada em 2002. Em certo sentido, As Horas é um minibiografia de Virginia Woolf, mostrando-a na tensão mental de escrever o romance Mrs. Dalloway e no peso em que a vida se transforma para ela – culminando no suicídio, em 1941.

Mas o filme é também a história de como um livro, Mrs. Dalloway, pode afetar a vida de três personagens femininos. Em primeiro lugar, o da própria autora, Virginia Woolf. Depois, saltando no tempo, as de Laura Brown (Julianne Moore) e Clarissa Vaughan (Meryl Streep), que tem de lidar com o suicídio em algum momento de suas vidas. O filme deu o Oscar de melhor atriz a Nicole Kidman por sua interpretação da frágil e atormentada Virginia Woolf.

(O texto foi escrito para o Portal do Estadão, como suplemento online da matéria de capa do Sabático, dedicado à escritora)

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