Violência e paixão em Almodóvar
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Violência e paixão em Almodóvar

Luiz Zanin Oricchio

06 de janeiro de 2008 | 12h26

deseo
Carmem Maura e a lei do desejo almodovariano

A Lei do Desejo, que reestréia com cópia nova, pertence à primeira fase de Pedro Almodóvar. Há quem a prefira à atual, uma opção argumentável. Quem a escolhe, opta por uma visão de mundo talvez mais anárquica e disposta a chocar. Quem fica com o Almodóvar mais maduro, entende que a sua relativa serenidade só fez contribuir para que os filmes ficassem melhores e mais profundos, sem tanta necessidade de ‘épater’, como os primeiros – Entre Tinieblas, Pepi, Luci, Bom, Matador, e seu grande sucesso Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos. Além de A Lei do Desejo, é claro.

Hoje Almodóvar nos é familiar, mas todos os que acompanham cinema há mais tempo sabem do impacto causado por esses primeiros filmes. Era como se víssemos surgir, sob as cinzas do franquismo, a Espanha vital. Debochada, sensual, inteligente, com vontade de mostrar ao mundo que toda aquela carolice de décadas de ditadura não havia matado a alma da nação espanhola. Era isso o que víamos nos filmes de Pedro Almodóvar.

Quando este A Lei do Desejo chegou, ele já não era uma novidade e sim um talento consolidado. Já se esperava seu último filme como se espera com ansiedade pela obra de um artista já reconhecido e, no caso, muito amado pelo público. Ou, pelo menos, por uma certa parcela do público, que não costumava se decepcionar com suas obras.

E A Lei do Desejo não era mesmo para decepcionar ninguém. Muito pelo contrário. Não apenas porque apresentava o seu vasto elenco de escândalos, mas porque era extraordinariamente bem construído como filme. O que temos de início? Um casal de irmãos, Pablo (Eusébio Poncela) e Tina (Carmem Maura). Pablo é cineasta. Homossexual, está terminando com dificuldade o caso com um namorado, Juan (Miguel Molina) e, no meio do caminho da sua vida, conhece outro homem, o encantador Antonio (Antonio Banderas).

Ao contrário do que indica o título, A Lei do Desejo não aponta para a sistematização das relações entre um ser humano e outro. Desejo não é matemática e as ‘leis’ da atração e repulsão não podem ser descritas senão, talvez, por uma lógica do paradoxo. E é aqui, no terreno perigoso das complexidades, das ambigüidades, dos aparentes contrários e nas combinações impossíveis que Almodóvar melhor se mexe, inclusive trabalhando com formas mistas.

Por exemplo, utilizando ora o melodrama ora o suspense policial para dar corpo a uma dramaturgia da sexualidade contemporânea. Nesta, como no cinema noir, ninguém é o que de fato aparenta ser. E isso é levado ao extremo da distribuição de papéis. Por exemplo, uma mulher de alta sensualidade pode fazer o papel de um travesti. E um travesti de verdade pode interpretar uma rigorosa mãe de família. Os papéis são intercambiáveis e podem se inverter à vontade. É nesse mundo às avessas, um tanto carnavalizado, que Almodóvar constrói o melhor dessa obra libertária.

O universo, visual e sonoro, de A Lei do Desejo é aquele que já se conhece. As cores são fortes, contrastadas, com predominância do vermelho. Cor da paixão, segundo o lugar-comum? Sim, e também da violência, do fogo e do sangue. Outro dado: Almodóvar não se paralisa jamais diante dos clichês. Sabe e tem consciência de que todos nós, em uma medida ou outra, somos feitos de lugares-comuns. Negá-lo é coisa de quem ainda espera reinventar a roda. E assim Almodóvar cava seu espaço de originalidade abrindo espaço entre clichês ancestrais. E quais são eles? O ciúme, o contraste entre a vontade de estabilidade e o desejo de aventura, e por aí vai. Outro deles: A curiosidade pelo conhecimento do gozo alheio – que na antiguidade produz o mito de Tirésias e, na sociedade moderna, aterrissa numa mesa de cirurgia para mudança de sexo.

Os diálogos são rápidos, cortantes, desbocados. O pansexualismo almodovariano é feminino e, nele, esse lado fêmea assume o comando como numa utopia do matriarcado. Na qual cabem os boleros, os tangos, tudo o que canta a esperança, a desilusão e os males de amor. Tudo o que evoca, melodicamente, essa mágica do encontro entre os sexos. Seja entre que sexo for e da maneira que puder ser. Qualquer tipo de amor vale a pena, parece dizer. Mesmo que termine mal, muito mal, é sempre preferível à segurança assexuada. Não à toa, finaliza com a voz magnífica de Bola de Nieve, o grande cantor cubano. Para quem sabe das coisas, isso diz tudo.

(Caderno 2, 5/1/08)

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