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Vincere (Vencer)

Luiz Zanin Oricchio

04 de novembro de 2009 | 14h43

É verdade que existem muitos filmes a serem descobertos nessa babilônica Mostra de Cinema. Alguns (talvez poucos) são de fato incontornáveis. Um deles é Vencer (Vincere), de Marco Bellocchio. Não seria abuso dizer que se trata de trabalho de um mestre, mesmo porque Bellocchio está longe de ser um “mestre” no sentido opressivo do termo. Isto é, aquele a quem se deve uma reverência permanente e irrestrita. Nada disso. Seus filmes expressam liberdade, leveza, experimentação em terrenos antes inexplorados.

É o caso deste trabalho que volta à época fascista para melhor, provavelmente, compreender a Itália atual. Em Vencer, Bellocchio debruça-se sobre um episódio pouco conhecido da vida de Benito Mussolini: seu envolvimento, na juventude, com Ida Dalser (Giovanna Mezzogiorno), com quem tem um filho, que nunca será reconhecido. Na época, Mussolini era um militante socialista sem um tostão no bolso. Ida lhe dá dinheiro para fundar um jornal. Mais tarde Benito vira casaca, abandona os socialistas para abraçar o fascismo e deixa de lado também a mulher, casando-se com outra.

O filme apresenta duas partes bem distintas. Na primeira, na fase de ascensão do fascismo, adota uma estética que dialoga com o futurismo de Marinetti, que foi simpatizante do regime apesar das ideias estéticas avançadas. Na segunda, claramente se alinha a uma linha melodramática crítica, ao evocar a via-crúcis de Ida que, forçando o reconhecimento do filho e de sua união com o Duce, acaba internada em um hospital de loucas. Nessa forma mista, Bellocchio visita terrenos novos em sua filmografia, flertando com a ópera e, portanto, com Visconti, tanto no uso da música como das cores fortes, no sentido cênico do espaço e, às vezes, na suntuosidade da linguagem.

Estabelece ainda um diálogo forte com o próprio cinema, como na sequência, inesquecível, em que o filme A Paixão de Cristo é projetado no teto do hospital para que os doentes, deitados, possam assisti-lo. Vendo essas sequências alguém lembrou da beleza chocante da Capela Sistina – e a referência procede.

Mesmo inovando na forma, Bellocchio permanece em seu ambiente temático preferencial – o poder, a sexualidade, a psicanálise. Na maneira como o autoritarismo se reflete na repressão sexual e assim sai fortalecido. Dessa maneira, o filme é uma análise não apenas do fascismo mas daquilo que o torna possível. Não por acaso, o Duce, presente no início, sai de cena em seguida. Ele não é mais necessário, pois se trata de estudar sua presença virtual na alma italiana.

Tudo isso, é claro, num filme histórico, que joga luzes sobre o presente. As condições são outras mas a estrutura talvez não tenha mudado tanto, como sugere a Itália de Silvio Berlusconi.

(Caderno 2, 4/11/09)

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