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Villa 21

Luiz Zanin Oricchio

01 de outubro de 2009 | 19h13

Em Villa 21, de Ezio Massa, o principal problema de três amigos é encontrar uma televisão decente para assistir à estreia da Argentina na Copa do Mundo de 2002. Os hermanos jogam contra a Nigéria e os garotos Freddy, Cuzquito e Lupín moram na favela que dá título ao filme, nos arredores de Buenos Aires, encostada no estádio do Huracán. Sim, o clube de onde veio De Federico, agora no Corinthians.

Como acontece em O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hambúrguer, o futebol acaba sendo um pano de fundo a um ambiente social mais amplo. Interessa a Massa mostrar as (péssimas) condições em que vive essa garotada, com tudo o que isso comporta: ruas esburacadas, fome, má educação, desagregação familiar, etc. Nada que não conheçamos por aqui. Em todo caso, não são imagens costumeiramente associadas com a Argentina, país que até há algumas décadas se orgulhava de ser um enclave europeu no 3º Mundo. Mas depois do sucateamento neoliberal das favelas e problemas sociais não chegam a ser novidade na terra de Maradona, como sabe qualquer um que já tenha assistido a um filme de Fernando “Pino” Solanas.

Massa detecta a mesma realidade que Solanas (autor do clássico La Hora de los Hornos), mas faz opções diferentes ao retratá-la. Por exemplo, Solanas, um documentarista (embora já tenha feito muita ficção), opta por um cinema discursivo, procurando ir do micro ao macro (o sistema financeiro internacional, o sucateamento sindical, a desindustrialização da era Menem, etc.). Massa fica no micro. Nas pequenas vidas que enxerga diante de si e retrata com carinho.

Em vez de uma postura reflexiva, o diretor opta pela filmagem mais rente aos personagens. São inúmeras as sequências entrecortadas em planos rápidos, como a mimetizar o rap que se ouve ao fundo. Compreende-se. Está falando de vidas que também se agitam, com a turbulência da juventude que tem fome – tanto no sentido literal como no figurado. Sem fazer sociologia de fundo de quintal, mas apenas apelando ao bom senso, sabemos que quando a pulsão jovem não encontra desafogo, e vê-se às voltas com a falta de perspectivas, o caminho da violência parece inevitável. Isso, Ezio Massa capta muito bem.

É pena que falte uma pitada de reflexão a esse filme que poderia talvez aprofundar um pouco seus temas. A ideia original é boa, mas ficamos esperando algo mais, que não se realiza.

(Caderno 2, 1/10/09)

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