Vício Frenético
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Vício Frenético

Luiz Zanin Oricchio

15 de janeiro de 2010 | 13h30

vicio

Quando Vício Frenético foi apresentado no Festival de Veneza, em setembro do ano passado, dois temas interligados vieram à tona. O primeiro: seria uma refilmagem do original de Abel Ferrara, de 1992? Afinal, ambos têm o mesmo título original – Bad Lieutenant – mas acrescido de um subtítulo no de Herzog: Port of Call New Orleans. E, mais do que isso, trazem o mesmo tipo de protagonista, um oficial que, ao combater o crime, acaba se viciando em drogas. O outro tema relacionava-se com o primeiro: se fosse de fato uma refilmagem, o que pensaria dela Ferrara, autor do original? Mais ainda porque ele próprio estava em Veneza, não competindo, mas numa mostra paralela, com um documentário sobre Nápoles (aliás, muito bom).

Farpas foram devidamente trocadas. Herzog negou que fosse um remake. Disse que se encontraria com prazer com Ferrara em torno de uma boa garrafa de uísque, alusão aos conhecidos hábitos etílicos do colega. Ferrara andara dizendo que era uma besteira repetir histórias com tantos temas novos soltos pelo mundo. Não se encontraram e a coisa morreu por aí.

São comentários extra-fílmicos. Talvez sirvam para entender alguma coisa do projeto, uma vez que Herzog, grande nome do novo cinema alemão, radicou-se nos Estados Unidos e é sobre seu país de adoção que tem preferido refletir. Aliás, no mesmo Festival de Veneza, apresentou em concurso um segundo filme, My Son, My Son, What Have Ye Done? , também ambientado nos EUA.

Desse modo, Herzog traz a trama do policial Terence McDonagh para a New Orleans pós-furacão Katrina. Um lugar de caos, morte, devastação. Nas cenas iniciais, vemos o tira em ação numa delegacia invadida pelas águas, quando um dos presos parece prestes a se afogar. A cena é importante para indicar o deslocamento em relação à história inicial de Ferrara, que se passa em Nova York, e o seu aggiornamento em relação à situação de 1992.

Talvez o mundo de hoje tenha mudado em relação àquela época, mas a realidade com que o tenente de agora deve se defrontar não parece tão diferente. Vive num meio corrupto e, ao tentar solucionar crimes relacionados à droga, torna-se, ele próprio, um viciado. Não melhora muito a sua sorte envolver-se com a prostituta Frankie, interpretada pela belíssima Eva Mendes. Tudo desestabiliza Terence, vivido aqui por Nicolas Cage.

Há um quê de aflitivo na figura de Cage em cena e adivinha-se que esse incômodo é produzido de caso pensado. Ele parece se deslocar de maneira assimétrica, como se as pernas não o sustentassem direito e não conseguisse manter-se em ângulo reto em relação ao solo. Em entrevista, ficamos sabendo que fora uma orientação de Herzog. Ele deveria manter-se sempre com os ombros desnivelados, como se houvesse destroncado a clavícula. Essa postura corporal funciona como metáfora ambulante do que se vê na tela – um mundo em desequilíbrio, no qual alguns papéis se invertem e o funcionário, que tem por função combater o crime, a ele se mistura.

Mesmo num projeto com vários problemas, Herzog imprime a sua assinatura pessoal. Seu estilo e visão de mundo. À maneira de outros dos seus personagens, McDonagh é também um obcecado. Alguém disposto a conhecer, mesmo com risco de morte, suas próprias possibilidades. Esse flerte com o abismo pode ser uma aventura na Amazônia (Aguirre, Fitzcarraldo), um desafio às feras (O Homem Urso), alguém com a paixão das alturas (No Coração da Montanha). Pode ser, no caso, um homem como McDonagh, testando seu limite no desvario.

O filme é um óbvio comentário sobre a doença intrínseca da sociedade, tão minada por dentro que seria infantil separar didaticamente a “doença” (os criminosos) e os “médicos” incumbidos de curá-la (os policiais). Tudo e todos se mesclam de maneira vertiginosa, como nas trips do mau tenente. Herzog acrescenta ainda um tom paródico, de autogozação, que produz uma sensação de alívio incômodo. Como se presenciássemos uma farsa sinistra.

(Caderno 2, 15/1/10)

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