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Vício Frenético: refilmagem ou não?

Luiz Zanin Oricchio

23 de outubro de 2009 | 09h53

Quando foi apresentado no Festival de Veneza, Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans, levantou uma pequena polêmica: era ou não um remake de Vício Frenético (Bad Lieutenant), de Abel Ferrara? Ora, isso nem deveria ser polêmica, a não ser que se esteja à procura de uma. É evidente, até pelo título, que, sim, Herzog refilmou a obra de Abel Ferrara.

Acontece que houve uma briga de egos entre os dois cineastas. Em declarações à imprensa, Ferrara havia dito que era uma estupidez fazer esse tipo de remake, com tantos assuntos novos soltos pelo mundo. Herzog, ironicamente, respondeu que nem havia visto o filme do colega e não iria entrar em discussão. Esperava encontrar-se com Ferrara em Veneza (ele lá estava, apresentando um documentário sobre Nápoles) e resolver a questão em torno de uma boa garrafa de uísque. Referência aos hábitos de Ferrara, que não se notabiliza por beber água mineral. E assim ficaram, cada qual em seu canto.

Vício Frenético tem como protagonista um policial envolvido com drogas e com a corrupção. No filme de Abel Ferrara, de 1992, o intérprete era Harvey Keitel; no de Herzog é Nicolas Cage. Numa comparação rápida entre os dois, parece que Herzog faz uma releitura paródica da mesma história. Leva-a a um tom levemente cômico, embora de humor negro, e que não tira seu potencial incômodo, mas talvez o alivie um pouco.

A ideia – ou pelo menos uma delas – era trazer a sensação de desequilíbrio, uma constante na trajetória do policial Terence McDonagh, drogado e enroscado com a prostituta Frankie (Eva Mendes). Cage conta que recebeu uma orientação precisa do diretor. Deveria alterar a postura corporal e jogar a cabeça para a frente do corpo; os ombros teriam de ficar desalinhados, um sempre mais alto do que o outro. E, de fato, é aflitiva a presença física de Cage na tela. Se a intenção era provocar essa sensação permanente de incômodo, deve-se contabilizar um ponto para o diretor.

O problema (um deles) é dar esse tipo de orientação e depois entregar Cage à própria sorte. Com a tendência do ator para a superinterpretação não surpreende que algumas cenas resultem caricatas. Dito isso, é claro que, na soma das partes, se impõe o toque de Herzog, que, afinal, é um grande diretor e sabe muito bem o que faz, mesmo que o negue em entrevistas.

(Caderno 2, 23/10/09)

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