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Viajou sem passaporte

Luiz Zanin Oricchio

12 de março de 2008 | 21h24

Esse era o nome de um grupo de estudantes anarquistas que fez furor em são Paulo nos idos dos anos 70, por aí. Nunca cheguei a tanto. Quer dizer, nunca viajei sem o nosso querido passaporte verdinho. Mas quase isso, confesso.

No tempo em que eu ainda tinha cabelo (e muito, acredite), me aventurei a conhecer o lado de lá do mundo sem grande infra-estrutura financeira. De outra maneira não iria, pois não tinha grana nem para viver direito aqui mesmo. Passaporte em ordem, claro, mas pouquíssima bagagem e menos dólares ainda, lá fui eu. Acharia graça se alguém perguntasse onde ia me hospedar quando chegasse. Via-se lá, na cidade de destino.

Aliás, a graça da coisa estava toda nisso. Na incerteza, no imponderável, no acaso, que sempre rende boas experiências e boas histórias. Me dei ao luxo de comprar um passe de trem e portanto podia atravessar países sem reservar nem mesmo o bilhete. Algumas vezes cheguei à estação e embarquei no primeiro trem que ia partir sem saber sequer para onde era levado. Se alguma cidade agradava, descia e procurava um hoteleco barato, uma hospedaria, algum albergue para a juventude ao alcance de minhas pobres posses. Na mão, uma malinha com poucas peças de roupa, dois ou três livros…e uma inesquecível sensação de liberdade.

Hoje, desse jeito, eu não passaria pela primeira alfândega. Seria “inadmitido”, segundo o jargão que já está se tornando familiar a brasileiros e, por conseqüência, a espanhóis.

Aprendo agora que, se você não quiser surpresas desagradáveis em sua viagem, deve apresentar-se com a passagem de volta na mão (e se for um e-ticket?), comprovação de hospedagem já paga, boa quantidade de dinheiro local, cartões de crédito, referências que comprovem o motivo da visita, etc. Quer dizer, você precisa ser um cidadão acima de qualquer suspeita e bem-posto na vida; deve ter tudo planejadinho “nos seus mínimos detalhes”, como dizia aquele antigo personagem cômico da TV.

Bem, longe de mim falar mal desse maravilhoso mundo “globalizado” (ôps!) em que vivemos. Agora, muito cá entre nós, que ele está ficando chato à beça, não há dúvida, não é? Só tenho pena de quem é muito jovem e está começando a vida agora, com tudo isso aí pela frente, esse mundo burguês e controlado. Cadê a graça? Cadê a aventura?

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