Viajo porque Preciso, Volto porque Te Amo
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Viajo porque Preciso, Volto porque Te Amo

Luiz Zanin Oricchio

07 de maio de 2010 | 10h16

viajo

Este é um estranho filme, que adota por título uma dessas frases populares que se vêem por aí, e se constitui por restos. Restos de filmagens documentais de antigas viagens dos cineastas, restos de falas, restos de um amor mal resolvido. Lembra um pouco aquele poema de Drummond chamado Resíduo: “De tudo ficou um pouco. Do meu medo. Do teu asco.”

Há um narrador que não aparece (apenas pela voz de Irandhir Santos), num monólogo ditado para o gravador, que forma um diário tanto científico quanto sentimental. Zé Renato, o personagem de rosto oculto, é geólogo. Explora a região agreste para fins da transposição do rio. Enquanto trabalha, rememora um caso de amor que fracassou. Caso de amor mal-resolvido, que se expressa, ele também, por meio de cacos, fragmentos, resíduos de lembranças, ódios e afetos. Nesse ambiente rarefeito, a paisagem se impõe. Ou melhor, a paisagem, natural e humana, tal qual é construída pelo olhar dos cineastas Marcelo Gomes e Karim Aïnouz.

A paisagem rural mescla-se à paisagem urbana. Da estrada interminável, salta-se para a multidão de romeiros em Juazeiro; dos mandacarus e casinhas isoladas, à babel da feira em Caruaru. Uma e outra filtradas por um olhar subjetivo que sugere paralelismos, por exemplo entre a montagem da feira e a tentativa de reconstrução emocional pelo personagem. A composição do material cinematográfico obedece a essa ordem de construção poética, por metáforas e deslocamentos.

O cinema se faz de fragmentos. Pelo menos esse tipo de cinema, aberto, poroso, alusivo. Denso e leve. Espantoso em seu mistério e beleza convulsiva.

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