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Viagens de Gulliver

Luiz Zanin Oricchio

14 de janeiro de 2011 | 12h29

Dá para fazer de tudo com um clássico da literatura. Adaptá-lo de
maneira tão literal como possível, reinventá-lo com liberdade, ou usar
apenas sua superfície mais óbvia de leitura. É a opção de Rob
Letterman ao trazer para a tela um título famoso da literatura
satírica como As Viagens de Gulliver, do irlandês Jonathan Swift
(1667-1745).

No caso, significa recriar a experiência do heroi em uma de suas
viagens – a mais famosa – quando descobre uma civilização de homens
minúsculos, Lilliput. Pelos seres minúsculos é aprisionado e depois
se torna heroi do local. No caso de Swift, o que havia de corrosivo em
seu livro é que Lilliput era uma versão nada disfarçada da própria
Inglaterra. Tudo nela é ironizado, incluindo a rivalidade extrema com
a França, que produz um estado de guerra sem sentido, de acordo com
Swift.

Num filme de verão, é claro que esse subtexto é limado, embora dele
não esteja ausente de todo aquele pacifismo meio de fachada que é
típico da ala liberal de Hollywood. Mas esse é um detalhe, que vem
enfeitado sob a forma de um número musical. O propósito do filme é
mesmo tomar uma boa e velha história, trazê-la tanto quanto possível
para os dias de hoje e, como o tema se mostra propício, mandar bala
nos efeitos especiais e na tecnologia do 3D.

No fundo, a estrutura da história é a clássica volta por cima do
“loser”, o perdedor, essa palavra que é o pior xingamento que se pode
fazer a um norte-americano. O Gulliver moderno parece ser um deles.
Vegeta na seção de correspondência de uma publicação especializada em
viagens. Vive apaixonado pela editora da revista, mas não tem coragem
de se declarar. É meio gordinho, tímido e engraçado. Gosta de tocar
guitarra-karaokê e é fissurado em seu smart phone. O aparelhinho,
aliás, comparece nas cenas mais improváveis, em merchandising
explícito de determinada marca.

A sátira inventada por Swift possibilita assim que o Gulliver-perdedor
do século 21, o homenzinho humilhado dos escritórios, torne-se um
colosso aos olhos lilliputianos. Agigantado, o fraco passa por
valente. E pode, enfim, celebrar o relativismo de todas as coisas. Num
mundo, eu sou pequeno. No outro, sou gigante. Num terceiro, sou menor
que uma formiguinha. E assim por diante. Então está pronto o cenário
para a redenção, essa outra grande mitologia da cultura
norte-americana, que irriga generosamente o cinema, do westen aos
dramas amorosos. As “mensagens” se enfileiram. Ninguém deseja a
guerra, nenhum emprego é inferior a outro, todos enfim se equivalem
numa sociedade perfeita porque fornece oportunidade a todo mundo. São
ideias, ou melhor, ideais, que vêm embutidos na textura de um filme em
aparência inocente.

Visto apenas como divertimento, Viagens de Gulliver até que funciona
bem. Os efeitos especiais são ok, nada de molde a impressionar, mas
não se expõem ao trash. A não ser, talvez, nas cenas de batalha naval,
quando fica muito visível que os navios são barquinhos de banheira.
Mas isso talvez seja detalhe. Para o que o público infanto-juvenil
deseja, um pouco de diversão e pipoca, o filme não deve decepcionar.
Tivesse um pouco mais de ambição, não iria por isso perder o seu
público-alvo e tiraria melhor proveito da mina de ouro ficcional
legada por Swift.

Para quem se sinta estimulado pelo filme a procurar a obra original,
uma boa notícia: Viagens de Gulliver acaba de ser lançado, com nova
tradução de Paulo Henriques Britto, em edição Penguin & Cia das
Letras. É um desses livros de tamanho médio, gostosos de manejar e
conta com bom aparato crítico. Boas notas explicativas e introdução de
Robert Demaria Jr. e – a cereja do bolo – um luminoso prefácio de
George Orwell, o autor de 1984 e A Revolução dos Bichos.

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