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Viagem ao Centro da Terra

Luiz Zanin Oricchio

13 de julho de 2008 | 16h46

Os mais velhos devem se lembrar das experiências anteriores com o cinema 3D (três dimensões). Forneciam aqueles óculos de celofane, uma lente de cada cor à entrada do cinema – e usá-los só servia para dar uma tremenda dor de cabeça ao freguês. Pois bem, a técnica foi reabilitada e agora sob nova tecnologia. Os óculos são de cristal líquido e usa-se uma câmera em duas lentes, que capta duas imagens dos mesmos objetos, da mesma forma como faz o olho humano. Ou seja, nós vemos em três dimensões porque o cérebro assim decodifica as imagens que recebe. O cinema mimetiza essa percepção através da técnica.

Essa proeza tecnológica é a maior atração deste Viagem ao Centro da Terra, direção de Eric Brevic que chega agora ao Brasil. Quem quiser usar os óculos e sentir o efeito 3D deverá procurar as salas equipadas para isso. As outras receberão cópias em duas dimensões, convencionais.
A sensação que se tem do 3D é bastante vívida em algumas passagens do filme. O efeito é usado para dar alguns sustos no espectador, como piranhas voadoras que às vezes parecem vir em direção ao seu rosto. Ou a mandíbula de um dinossauro, que parece tão próxima que o espectador poderia tocá-la, caso o desejasse. A sensação de altura e profundidade de campo também é ampliada. Enfim, busca-se um cinema sensorial, que produza cada vez mais no espectador a ilusão de que está imerso no mundo retratado. Que as coisas e pessoas estão à sua volta e não numa tela retangular alguns metros à frente.

E o filme, em si? Bem, trata-se de uma aventura juvenil inspirada em Julio Verne, o grande mestre francês da aventura e da ficção científica. Na verdade, não se trata de uma adaptação convencional do clássico Viagem ao Centro da Terra. A história passa-se no presente e tem como protagonista um geólogo, Trevor Anderson (Brendan Fraser), cujo irmão sumiu em condições misteriosas. Descobre nas coisas do irmão um exemplar do livro de Verne, anotado e como possíveis indicações de como chegar ao centro do planeta. Tem como companheiros de ação o menino Josh Hutcherson e a bonitona Anita Briem, que fotografa bem em duas ou em três dimensões.

Com exceção feita a esse novo efeito especial, Viagem ao Centro da Terra comporta-se como um convencional filme de aventuras destinado ao público infanto-juvenil. Aposta nos sustos, na vertigem de seqüências em montanha-russa, em monstros pré-históricos que se julgava extintos e se mantêm estranhamente vivos e ativos, etc. Nada que destoe do roteiro previsto para esse tipo de blockbuster.

A atração a mais é uma tentativa de a indústria defender-se da crescente banalização do cinema e das imagens de um modo geral. O público, de maneira geral, e de forma crescente, tem acesso às imagens sob as mais diferentes formas e suportes. Do convencional DVD (sob a forma legal ou pirata), pela TV por assinatura ou de sinal aberto, e agora até mesmo pelo celular e pelo I-Phone –as imagens estão aí, as histórias pululam, de forma repetitiva e massiva. O que poderia tirar o espectador de sua casa e fazê-lo pagar um ingresso para uma sala de cinema? Justamente, uma experiência que ele não pode ter em sua residência, por sofisticado que seja seu Home Theater. Essa aposta tecnológica do 3D. Se der certo, e não for mais uma febre de verão, deveremos ter cada vez mais filmes produzidos com esse tipo de tecnologia. Viagem ao Centro da Terra não foi o primeiro. A Família do Futuro e A Lenda de Beowulf foram os exemplares recentes disponíveis tanto em 3D como no sistema convencional.

(Caderno 2, 11/7/08)

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