Vertigo desbanca Kane
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Vertigo desbanca Kane

Luiz Zanin Oricchio

02 de agosto de 2012 | 22h18

 

Sim, na nova pesquisa do Instituto Britânico de Cinema, Um Corpo que Cai, de Hitchcock, aparece à frente do bicho-papão Cidadão Kane, de Orson Welles, que cai para segundo. Essas listas valem o que valem. Ou seja: não expressam uma “verdade” sobre os filmes, ou sobre a sua posição numa hierarquia, ou num cânone; expressam o sentimento de uma época, a sua visão sobre o cinema em sua perspectiva histórica. Dito isso, a lista é muito interessante. Ausências serão notadas; posições na tabela serão questionadas. Mas a relação de filmes é de primeira. Um colega,  Daniel Feix, do jornal gaúcho Zero Hora, me pediu um depoimento sobre a tal lista e ascensão de Vertigo. Abaixo, o que escrevi a ele. E, sob o texto, o link para a lista. 

 

Bem, meu caro, dei uma olhada na lista, que é respeitabilíssima. Não contém qualquer aberração entre os selecionados, embora se possa fazer alguns reparos.Eu jamais tiraria Kane da primeira posição, embora considere Um Corpo que Cai a obra-prima de Hitchcock. Ok. Só que Kane é muito mais inovador e completo. Revolucionou o cinema em seu tempo.

O que houve, a meu ver, é efeito da revalorização de Hitchcock pela nouvelle vague e, em especial, por François Truffaut em seu maravilhoso livro de entrevistas com o mestre. De alguma forma, esse trabalho crítico (que foi de todo o pessoal da nouvelle vague e não apenas de Truffaut) mudou a posição de Hitchcock no ranking crítico e esse efeito passou para gerações mais jovens que, de uma maneira curiosa, sentem-se ligadas mais ao pensamento da nouvelle vague que a outras tendências cinematográficas concorrentes. Para ficar no âmbito francês, leem mais os Cahiers du Cinéma que a Positif.

Grave, a meu ver, é um filme como Encouraçado Potemkim, de Sergei Eisenstein, aparecer apenas na 11ª posição, o que indica uma desvalorização relativa do cinema político com um todo. Houve tempo em que Kane e Potemkim brigavam pela primeira posição em qualquer lista séria.

Talvez essa desvalorização do político se reflita também na omissão da obra-prima (a meu ver) de Chaplin, Tempos Modernos, entre as 50 mais. E, no meu caso pessoal, não dá para engolir 81/2, o crème de la crème de Fellini, pegar apenas 10º lugar. É pouco. Um acréscimo a ser feito. Não há sequer um filme de Buñuel entre os 50, o que abala acredibilidade da lista, na minha opinião. Não dá para pensar o cinema moderno sem Buñuel.

Aqui, o link para a lista do BFI:

http://www.bfi.org.uk/news/50-greatest-films-all-time

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