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Versificando

Luiz Zanin Oricchio

22 de maio de 2009 | 17h41

Entre todos os documentários tendo por tema a música popular brasileira, faltava um que falasse do verso improvisado. É o tema de Versificando, de Pedro Caldas, que documenta os diversos registros pelos quais essa arte difícil se manifesta.

Ela pode vir de cantadores de feiras e das ruas do Nordeste. Pode aparecer no canto dos violeiros do interior do País. Pode estar nos fundos de quintal ou nas quadras de escolas de samba. Pode se expressar na voz dos rappers e dos praticantes do hip-hop freestyle. A ideia de base é sempre a mesma. Há um mote, em cima do qual os cantadores glosam. Desafiam-se uns aos outros, porque essa arte tem o formato de luta. Ok, de uma luta simulada, mas que pode parecer bem pesada e, ao fim da qual, os “inimigos” se reconciliam.

O outro mote de Versificando, aquele que fica em pano de fundo, mas de qualquer forma muito presente, é o ambiente onde se exerce essa arte. Sim, ela é expressão de todo o Brasil, mas acontece, se realiza, na cidade de São Paulo. É, por paradoxo, a megalópole, cuja dimensão incontrolável a todos devora, que também pode abrigar as manifestações de todo um país com as dimensões do Brasil. São Paulo é um ponto de encontro, uma síntese tamanho-família e muitas vezes mal-ajambrada. Mas onde se podem acomodar a cultura de migrantes de várias origens.

Basicamente, Versificando é um filme para ser curtido, visto e ouvido. Se você prestar atenção, verá o quanto de habilidade e de arte exige um desafio como o de fazer versos, antecipando-se à resposta do rival e tendo, como diz um deles, “apenas 30 segundos para pensar”. Mesmo que adivinhemos que a prática continuada ensine alguns macetes, como as rimas mais fáceis e mais óbvias. Mas, ainda assim, há um resto, um quantum de imprevisibilidade que torna essas práticas fascinantes. Sentimos que, por calejados que eles sejam, sempre há um momento em que estão andando na corda bamba. E que podem vacilar, e cair. Esse desafio ao perigo, que existe em todo improviso, do verso ao jazzístico, é que encanta o público. Não por acaso, esses cantadores fazem sucesso quando se exibem em palcos ou em praça pública. Basta ir à Praça da Sé, em São Paulo, para vê-los em ação. Sempre há gente ao redor.

Assim, se o filme é feliz ao mostrar os improvisadores e sua arte, parece menos bom ao tentar explicações sociológicas e históricas. A presença, esporádica é verdade, de “especialistas”, como historiadores ou antropólogos, parece mal colocada. Não se encaixam na proposta e nem iluminam o fenômeno. Mesmo porque, para fazê-lo, seria necessária uma longa cadeia de explicações, que remontaria, provavelmente, ao canto medieval e sua tradição de invenção na hora, as maneiras como chegaram ao Brasil e aqui se aclimataram, etc. Como o filme não alimenta essa ambição, a sua parte, digamos assim, “teórica”, parece um tanto deslocada. Quebra o ritmo.

Dessa maneira, o melhor mesmo é curtir os versos e os personagens que os criam, sem se preocupar muito com a busca de origens ou explicações de ordem sociológica para a canção. Estas caberiam em outro projeto. Que, aliás, já foi esboçado em Palavra (En)Cantada, de Helena Solberg.

(Caderno 2, 22/5/09)

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