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Ventos da Liberdade: pensando na História para entender o mundo

Luiz Zanin Oricchio

13 de abril de 2007 | 19h47

Por que se dedicar a filmes políticos e/ou históricos hoje em dia? Deve ser essa a pergunta feita sempre que o britânico Ken Loach prepara um novo projeto. De alguma forma, ele deve respondê-la de maneira satisfatória aos seus produtores porque, a cada vez, lá vem ele com esse mesmo tipo de temática tida como ultrapassada pela moda do cinema (há, sim, uma moda cinematográfica, como existe moda nas roupas, na literatura, na música, na culinária, quem sabe até na sexualidade). E lá vem Ken Loach com seus assuntos estranhos: os problemas da classe operária britânica, a Guerra Civil Espanhola, a guerrilha da Nicarágua, os ferroviários sem emprego, faxineiras latinas em apuros nos Estados Unidos, etc. Quem se interessa?

Muita gente, a julgar pela coerência da carreira desse inglês nascido em 1936 e que se empenha em fazer um cinema social como se acreditasse em cada filme seu como modesta contribuição para a mudança de um mundo do qual ele não gosta. E, se continuou fazendo esses filmes sob Margareth Thatcher, por que não continuaria a fazê-los sob Tony Blair, o aliado automático de Bush?

Neste Ventos da Liberdade (no original The Wind that Shakes the Barley), Loach e seu roteirista de sempre, Paul Laverty, retornam aos anos 1920, na Irlanda, quando começa a luta armada contra a ocupação inglesa no país. Por um lado, existe a multiplicidade de personagens, pois o que importa é a ação social e nem tanto o indivíduo. Por outro, o drama pode também ser descrito a partir de dois irmãos, um deles já engajado na resistência aos ingleses, o outro um estudante de medicina que deseja apenas cuidar da própria vida e da saúde alheia. Pelo menos até o momento em que testemunha um ato de barbárie e tortura do invasor inglês e resolve então se engajar na resistência e pegar em armas. Temos aqui uma técnica de superposição do destino individual e do coletivo que funciona muito bem do ponto de vista da dramaturgia. O que significa dizer que o filme não apenas se propõe como analítico, de um ponto de vista histórico, como emocionante, do ângulo individual.

Jogando na reflexão como na dramaticidade, Ventos da Liberdade mostra como o opressor se vale da divisão interna entre os resistentes para se impor. É um belo e denso trabalho, que, claro, pode ser interpretado de várias maneiras mesmo porque não se propõe como parábola exemplar. Na primeira leitura, talvez seu sentido mais urgente seja este: a necessidade de identificar aliados e não confundi-los com o outro lado. Loach, um cineasta de esquerda, enxerga a sociedade estruturada por seus conflitos e não por uma suposta harmonia entre contradições, essa ficção liberal dos nossos tempos. Para ele, na Irlanda dos anos 20, como em qualquer outra parte nos dias de hoje, trata-se de buscar alianças para avançar em terreno dividido. Isso é política.