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Veneza, por fim

Luiz Zanin Oricchio

14 de setembro de 2009 | 18h21

Se você ainda tem vontade de ler alguma coisa sobre o Festival de Veneza, vai aí o material que mandei para o Caderno 2 e saiu publicado hoje. Divirta-se.

O festival foi o mais polêmico dos últimos anos. Com a passagem apoteótica de Hugo Chávez pelo tapete vermelho, a diatribe anticapitalista de Michael Moore, a briga entre a direita que financia e a esquerda que faz os filmes (a propósito do concorrente italiano O Grande Sonho, de Michele Placido), não houve espaço para tédio no Lido.

Por ironia, a premiação foi tranquila – ou quase. Todos esperavam que o israelense Lebanon (Líbano), de Samuel Maoz, levasse o Leão de Ouro, como de fato aconteceu. Ninguém reclamou de injustiça quanto ao prêmio principal. Ninguém, com exceção de uma jornalista libanesa que, ao final da entrevista coletiva após a premiação, acusou o filme de “propaganda pró-Israel ao ver apenas um lado da questão”. Imediatamente foi seguida por uma egípcia que também colocou em dúvida a maneira como Maoz havia representado a guerra no Oriente Médio. O diretor defendeu-se: “Procurei mostrar o meu ponto de vista, o único que eu conhecia naquela circunstância.”

O filme, forte em sua economia narrativa, é encenado no interior de um tanque de guerra que leva quatro jovens israelenses ao território libanês. O que vemos “de fora” é através da câmera que guia o tanque e dos ruídos que chegam ao interior do veículo. Em determinado momento, um prisioneiro palestino é introduzido no tanque. Há um diálogo devastador entre ele e um membro da milícia libanesa cristã, aliada dos israelenses. A polêmica remete ao massacre de Sabra e Shatila, responsabilidade dessas milícias cristãs, e tema do badalado e também contestado Valsa Para Bashir.

Líbano é mais um filme destinado à controvérsia, pois mete a colher no campo minado das posições inconciliáveis, das guerras sem solução à vista. Mais ainda porque Maoz, que com ele estreia na direção, é um ex-soldado. Combateu na primeira guerra do Líbano e agora, no cinema, procura exorcizar lembranças traumáticas. “Quis fazer o espectador experimentar a sensação de pânico que se tem numa situação como essa; revelar o real bruto da guerra, limpo dos clichês com que costuma retratá-la quem não a conhece”, disse.

O Leão de Prata, para melhor direção, ficou com a iraniana Shirin Neshat, de Zanan Bedoone Mardan (Mulheres sem Homens). A história recua aos anos 50 para mostrar que a opressão à mulher iraniana vem dos tempos do Xá, avança pela revolução islâmica de Khomeini e não conhece progressos na era Ahmadinejad. Shirin é uma videoartista famosa e esta é sua primeira experiência na direção, com um filme bonito, claramente contemplado em função do tema. Não deixa de ser curioso que os dois principais prêmios de Veneza 2009 tenham ido para diretores estreantes.

Já o Prêmio Especial do Júri ficou para um profissional, o alemão de origem turca Fatih Akim, que trouxe ao Lido seu divertido Soul Kitchen, história de um rapaz de família grega que mantém um restaurante charmoso e precisa conservá-lo diante de muitas dificuldades. “As comédias são mais difíceis de fazer do que os dramas”, disse Akin após a premiação. Difícil, mas saiu-se bem. Soul Kitchen faz rir e, ao mesmo tempo, lança olhar humanista sobre uma Alemanha multiétnica e multicultural.

O prêmio de melhor ator também não causou surpresa e foi para Colin Firth por A Single Man, drama dirigido pelo estilista Tom Ford em sua primeira experiência no cinema. Se Firth era unanimidade, o filme, em si, dividiu opiniões. Muitos se emocionaram com a história do professor que perde em acidente seu companheiro há 16 anos. Outros destacaram o lado melodramático e “fashion” em excesso, um exercício fútil de estilo.
Mais contestado foi o prêmio de melhor atriz para Ksenia Rappoport em La Doppia Ora, um dos quatro concorrentes da casa. O trabalho de Ksenia, que interpreta em italiano mas é russa, parece inferior ao de Margheritta Buy em Lo Spazio Bianco. A Itália levou também o prêmio de revelação com Jasmine Trinca, em Il Grande Sogno, de Michele Placido, que evoca o ano rebelde de 1968 na Itália. Acontece que Jasmine tem nove anos de carreira e trabalhou em sucessos como La Meglio Gioventù, de Marco Tullio Giordana, Il Caimano e O Quarto do Filho, ambos de Nanni Moretti. Ela é tudo o que se quiser, menos uma estreante.

As outras premiações podem ser consideradas normais, como a Osella para melhor contribuição técnica para Sylvie Olivé pela cenografia de Mr. Nobody e a Osella de melhor roteiro para Todd Solondz de Life During Wartime. Talvez Solondz merecesse mais por sua ácida interpretação da América contemporânea.

Segundo texto:

Contraditório, original, cheio de energia – assim foi Veneza 2009

Um festival de cinema é como um bom filme – precisa ser interpretado. O de Veneza 2009 pode ser considerado como sintoma de alguns impasses do cinema contemporâneo. Cerca de 2800 longas-metragens do mundo todo se inscreveram. A seleção de 25 entre eles para concorrer a um dos mais prestigiosos prêmios do cinema mundial – o Leão de Ouro – é já uma primeira peneirada reveladora. A reação a esses 25 eleitos durante o evento, com as críticas negativas ou positivas que ganham, a recepção entusiástica ou indiferente com que são acolhidos pelo público e por jornalistas, funcionam como segundo filtro. A última etapa é a premiação, na qual o júri (este ano presididido por Ang Lee, dois Leões de Ouro na estante) desenha o retrato final, aquele que será posto na moldura e entrará para a História.

A seleção deste ano buscou uma mescla entre filmes que retratam questões prementes e contemporâneas, os de apelo mais popular e os antigamente chamados de “filmes de autor” por seu empenho artístico, sentido de inovação e assinatura pessoal. Claro que não existem limites claros entre essas categorias e uma mesma obra pode, em tese, transitar por todas elas. Mas, para fins didáticos, essas distinções talvez ainda sirvam para alguma coisa.

Por exemplo, para dizer que em Veneza 2009 a primeira categoria saiu amplamente vencedora. Como se o cinema a ser privilegiado e incentivado devesse mostrar sua conexão clara com os problemas do mundo, ou melhor ainda, com as dores do mundo, seja a guerra que não termina, seja a opressão sobre as mulheres. O cinema mais “popular”, como Tetsuo – the Bullet Man, Prince of Tears ou Survival of the Dead, comparece e tem seu lugar. Mas não repercute na crítica nem emplaca no júri, mesmo que tão heterogêneo quanto o deste ano em Veneza.

O cinema dito “de autor”, porta-voz da cinefilia, da invenção e da qualidade artística acima de qualquer quesito, também não fez grande sucesso este ano. É o caso do maior injustiçado, o filipino Lola, de Brillante Mendoza, exercício formal e de conteúdo sobre o drama social em Manila. Com ele, Mendoza talvez tenha feito seu trabalho mais maduro, sem qualquer apelo fácil à crueza de seus outros filmes, mas expondo em tom agudo a história de duas avós unidas pela pobreza e por um mesmo crime, o que o neto de uma cometeu e o neto da outra foi a vítima. Um Leão de Ouro lhe cairia bem. O fato de ter sido ignorado por completo soa como absurdo.

Além de Lola, outros filmes autorais também foram ignorados, como é o caso do belo Persécution, de Patrice Chéreau, ou do bastante interessante My Son, My Son What Have You Done?, de Werner Herzog, que, este ano entra para a história de Veneza com dois filmes em competição (o outro foi Bad Lieutenant, refilmagem de Vício Frenético, de Abel Ferrara).
Mas o caso mais claro de desprezo ao autoral foi o de 36 Vues du Pic St. Loup, do veterano Jacques Rivette, filme que foi pouco compreendido, ou tido como obra menor de um mestre doente e envelhecido. Nada disso. Envelhecido e doente Rivette, nascido em 1928, pode até estar. Mas 36 Vues é obra de um frescor e um sentido de mistério raramente encontrados hoje em dia. É a história de um circo mambembe, cujo dono morreu e tem de prosseguir o com o show. Chega a filha, Jane Birkin, distante há 15 anos, e também um estranho viajante intepretado por Sergio Castellitto, incorporado à trupe. É o tipo de filme que, com suas alusões, seus espaços em branco e ambivalências tende a desaparecer no furor de uma mostra gigantesca que parece resolver mal a equação entre o culto ao cinema e ao brilhareco midiático. Mas, para além dos festivais, o rigor de Rivette permanece.

Essas ambivalências da Mostra são impasses já pensados por seu diretor há seis anos, o inefável Marco Müller, intelectual e sinólogo que diz enfrentar a maratona com doses cavalares de chás e tisanas especiais, enviados por seus amigos da China. Müller entende que a oposição entre cinema de autor e cinema de massa não faz mais sentido em meio à revolução dos meios audiovisuais que vivemos. Em sua prosa oblíqua, escreveu que a Mostra se propõe como “retrato panorâmico, comentário e intepretação” deste novo mundo do audivisual. E se diz conformado “ante a nostalgia de alguns pela aura perdida das obras-primas tanto quanto pela torcida deslavada pela cultura de massa”.

Assim, ao recusar alinhamento entre os “apocalípticos” nostálgicos do cinema de autor ou os “integrados” cultores do cinema industrial, Veneza pretende cavar espaço próprio ao usar essas categorias criadas há muitos anos por Umberto Eco para falar das relações dos intelectuais com a televisão e a comunicação de massa em geral. Veneza fica nem cá nem lá, expurgando-se tanto de expectativas exageradas em relação à arte quando de preconceitos ao popular — o que também pode ser uma forma de se situar em parte alguma e assim perder a identidade. Pode ser também um recurso para se instalar no epicentro da crise audivisual e fazer as vezes de sua caixa de ressonância. Foi a opção deste ano e parece não ter sido tão má decisão, em fim de contas.

Apesar dos seus vários percalços, Veneza 2009 deverá deixar a lembrança de uma mostra original, polêmica, cheia de energia e que propôs uma série de problemas a quem se dispuser a pensar sobre eles. O que mais pedir a um festival?

Prêmios Oficiais

Veneza 66 (Competição principal)

Leão de Ouro para melhor filme: Líbano, de Samuel Maoz (Israel)
Leão de Prata para melhor direção: Shirin Neshat, de Zanan Bedoone Mardan (Irã)
Prêmio Especial do Júri: Soul Kitchen, de Fatih Akin (Alemanha)
Coppa Volpi para melhor ator: Colin Firth em A Single Man (EUA)
Coppa Volpi para melhor atriz: Ksenia Rappoport em La Doppia Ora
Prêmio Marcello Mastroianni para ator ou atriz revelação: Jasmine Trinca em Il Grande Sogno
Osella para melhor contribuição técnica: Sylvie Olivé pela cenografia de Mr. Nobody
Osella para melhor roteiro: Todd Solondz de Life During Wartime

Mostra Orizzonti

Prêmio Orizzonti: Engkwentro, de Pepe Diokno (Filipinas)
Prêmio Orizzonti para melhor documentário: 1428, de Du Haibin (China)
Menção especial: The Man’s Woman and Other Stories, de Amit Dutta (Índia)

Prêmio Luigi de Laurentiis para Opera Prima (primeiro filme): Engkwentro, de Pepe Diokno (Filipinas)

Prêmio Controcampo italiano:
Cosmonauta, de Suzanna Nicchiarielli
Menção especial: Negli Occhi, de Daniele Anzellotti e Francesco del Bosco

Corto Cortissimo
Leão para o melhor curta: Eersgeborene (First Born), de Etienne Kallos (África do Sul/EUA)
Candidatura Mostra di Venezia: indicação para os European Film Awards: Sinner, de Meni Philip (Israel)
Menção especial: Felicitá, de Salomé Aleksi (Geórgia)

Prêmio Persol 3-D para o melhor filme 3-D do ano: The Hole, de Joe Dante

Especiais:
Leão de Ouro pela carreira: John Lasseter e os diretores da Pixar
Jaeger-Le Coultre Glory to the Filmmaker Award: Sylvester Stallone

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