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Veneza Estelar

Luiz Zanin Oricchio

27 de agosto de 2013 | 19h43

VENEZA

Em sua 70a edição, Veneza, o mais antigo festival de cinema do mundo, aposta numa fórmula antiga e que nunca decepciona – um longa de grande potencial de público na abertura, Gravity, dirigido pelo mexicano Alfonso Cuarón, e filmes chamados “de autor”distribuídos por suas várias mostras, em especial a seção principal, Veneza 70, que dá ao seu vencedor o cobiçado Leão de Ouro. Um dos prêmios mais importantes da cinematografia mundial e, por certo o mais bonito, com sua figura de leão alado, símbolo da Sereníssima República de Veneza. Quem quiser ver de onde saiu o modelo para o troféu deve dirigir-se à Praça San Marco e ver o leão de asas sobre uma das pilastras que dão para a laguna. É uma vista majestosa, ainda que vulgarizada pelo turismo de massa.

O festival se desenrola do outro lado da laguna, no Lido, a principal ilha do complexo veneziano. Lá, nessa faixa de terra comprida e aprazível, serão exibidos esses seletos competidores – 20 títulos, entre os quais predominam produções italianas e norte-americanas – o que também não chega a ser uma novidade.

Com Gravity, Cuarón, diretor do divertido E sua Mãe Também, com Maribel Verdú, investe agora no gênero sci-fi, contando com dois trunfos de peso no elenco, Sandra Bullock e George Clooney, o ator americano mais amado na Itália. Gravity, em 3D, abre amanhã oficialmente “a Mostra”, como o festival é tratado por aqui, como se não houvesse outra e nem concorrência possível, muito embora Veneza venha sofrendo, nos últimos anos, o assédio de Toronto e seu mercado poderoso. O festival canadense começa justo no meio da Mostra e provoca uma revoada de celebridades de volta ao outro lado do Atlântico. Mas os italianos mantêm-se impávidos. O que fazem de concessão é isso, mesclar celebridades a autores mais conhecidos de revistas como Cahiers du Cinéma ou Positif que do grande público.

Essa estirpe autoral comparecerá em abundância ao Lido para prestigiar o velho festival fundado em 1932, em plena era Mussolini. Por exemplo, estará no Lido um habitué como o israelense Amos Gitai com Ana Arabia; um queridinho dos Cahiers pós nouvelle vague como Philippe Garrel com seu La Jalousie (O Ciúme). E o animador japonês Hayao Miyazaki, que teima em desenhar suas histórias de maneira artesanal num tempo em que as plataformas digitais prevalecem e se ocupam do trabalho pesado. O americano James Franco vem com Child of God; esse, só vendo mesmo.

Uma boa nova é a volta de Gianni Amelio à Mostra. Amelio que deu à Itália o seu último Leão de Ouro, em 1998, com Assim Eles Riam, traz agora L’Intrepido, que reflete sobre a precarização do trabalho contemporâneo. Um filme de Amelio sempre cria uma expectativa enorme. Não apenas porque é amado no meio cinematográfico italiano mas porque é um dos últimos autores de verdade numa cinematografia que conhece crise sem fim, inclusive de qualidade, o que todos os anos se discute no Lido.

Há motivos também para esperar com impaciência por Stray Dogs, de Tsai Ming-liang e Tom à la Ferme, do francês Xavier Dolan. O inventivo Terry Gilliam traz The Zero Theorem, segundo ele mesmo versão contemporânea de Brazil, seu exercício de distopia predileto. Outro aspecto digno de nota na mostra principal é a presença de dois documentários entre os concorrentes, fato que jamais havia ocorrido antes e representa prova adicional da vitalidade do gênero. São eles Sacro Gra, de Gianfranco Rosi, sobre Roma, e The Unknown Known – Life and Times de Donald Rumsfeld, dirigido por Errol Morris. Traz, é o que se diz, um grande depoimento do falcão de Bush, o que deve provocar polêmica semelhante à fala ininterrupta e esclarecedora de Robert MacNamara em A Névoa da Guerra, também de Morris. Quando esses grandes predadores abrem o jogo, quem lucra é a História.

Se a mostra competitiva principal está recheada de atrações, o cardápio dos fora de concurso não parece menos atraente. A fantasia espacial de Gravity abre o festival hoje, mas está longe de despertar a expectativa, pelo menos entre cinéfilos, causada pelo retorno de Ettore Scola. Mestre e autor de obras-primas como Nós que nos Amávamos Tanto, Um Dia Muito Especial e O Baile, Scola havia saído de cena com grande ruído, afirmando em entrevistas que era cada vez mais difícil filmar na Itália e, com sua idade avançada, já se considerava retirado. Pois bem: voltou e com um tema da pesada – nada mais nada menos que um filme sobre um dos maiores cineastas de todos os tempos. Che Strano Chiamarsi Federico, ou seja, Que Estranho Chamar-se Federico (Fellini), talvez o maior de todos. Só uma coisa pode prejudicar esse “Scola Raconta Fellini”, a imensa expectativa nele depositada.

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