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Veneza 2013 – Philomena, a favorita, o último Miyazaki…e mais

Luiz Zanin Oricchio

02 Setembro 2013 | 11h59

Dizem que um festival só começa de verdade quando o público se apaixona por um filme. Nesse caso, Veneza-2013 começou ontem para valer com a consagração de Philomena, de Stephen Frears, numa grande interpretação de “dame” Judi Dench. A história – baseada em fatos reais, ainda que inverossímil – é mesmo daquelas que se prestam a despertar simpatia e emoção. Fala de uma mãe que resolve procurar seu filho depois de ter sido separada dele ainda criança. Faz rir e faz chorar.

Baseado no livro The Lost Child of Philomena Lee, conta a história da mãe solteira que, acolhida num convento da Irlanda no início dos anos 1950, é separada da criança, supostamente dada em adoção por dinheiro e nunca mais a vê. Até que, cinquenta anos passados, resolve seguir os traços do filho perdido, agora com a ajuda de um jornalista, Martin Sixsmith (Steve Coogan), autor do livro.

Na investigação, aparecem muitas dificuldades, resistências, surpresas e, claro, emoções sem fim. Mas não se trata de obra lacrimogênea, daquelas chantagistas, cheias de truques e golpes baixos para arrancar lágrimas. Não. Frears é um mestre dentro daquilo que se propõe. Constrói uma obra sólida, de roteiro lapidado, vivido de modo contido tanto por Koogan quanto por Dench. Very british, nesse sentido. Em especial pelo uso do senso de humor, quando menos se espera por ele.

Aliás, na entrevista Frears comentou exatamente esse ponto e o fez sem rodeios, como de hábito: “Ora, a história é tão triste que tínhamos de usar um pouco de humor para aliviar o público”, disse.

Judi Dench disse que, dada a natureza da história, tomou todo o cuidado possível ao compor a personagem. “Falei com a verdadeira Philomena, é uma senhora de 84 anos, uma mulher maravilhosa”, disse. “Minha grande preocupação era entender aquela história e aquela pessoa”.

Ao mesmo tempo, havia o outro lado. A Igreja fica muito mal na fita, pois, além da notória falta de piedade com as mães solteiras, é acusada abertamente de tráfico de bebês. Assim como Anthony, filho de Philomena, outros teriam sido adotados a troco de dinheiro. Em bom português, eram vendidos a casais em busca de adoção. Isso em 1952. “Não quis fazer um filme acusatório, mas espero que o papa Francisco o veja”, disse Frears, meio brincando, meio a sério.

Com esses elementos, o diretor constrói um drama de boa envergadura. Os personagens são reais e o destino de Anthony revela-se absolutamente insólito, como você verá quando Philomena estrear no Brasil. Enfim, é o triunfo no Lido do cinema tradicional, de boa carpintaria, com uma história humana, linear, muito bem contada e interpretada. Tradicional, mas sem qualquer ranço acadêmico. Falta invenção, é verdade, mas quem disse que todo mundo precisa dela? Até agora, Philomena disparou na preferência do público e também da crítica, como atestam as estrelinhas contabilizadas a cada dia no boletim do festival, Ciak in Mostra. Por enquanto é favorito, mas há muita água por rolar.

Kaze Tachinu, a animação de Hayo Miyzaki, a história de Jiro Horikoshi, projetista de aviões de caça supereficientes e usados depois por camicases na Segunda Guerra. A trajetória de Jiro, de menino que sonhava voar a adulto gênio da prancheta e apaixonado por uma mulher tuberculosa, é traçada com a linha segura e romântica de Miyazaki. Uma ótima história, que rendeu certa polêmica, tendo sido acusada de militarista no Japão. Isso, mesmo com o personagem lembrando, a cada 15 minutos, que seus belos sonhos aéreos gerassem máquinas de destruição em massa. Como, aliás, lamentava o nosso Santos Dumont. Uma coisa é o que pensa o homem; outra, a circunstância em que vive, para lembrar Ortega y Gasset. A vida é a soma das duas. O título é tirado de Paul Valéry: “Le vent se lève, il faut tenter de vivre”. O vento se levanta; é preciso tentar viver.

Na enxurrada de filmes americanos em concurso, mais dois falando de traumas, e traumas texanos. Um deles é City of God, de James Franco, inspirado em Cormac MacCarthy. Nesse caso, sem ler o livro, dá para dizer que a adaptação ficou aquém. É a história de um pobre diabo, Lester Ballard (Scott Haze), um tanto retardado que, meio sem querer, acaba se tornando serial killer. Franco leva para o lado caricato. Já Parkland volta a uma tragédia americana prestes a completar 50 anos. Em 22 de novembro de 1963 o presidente John Kennedy era assassinado em Dallas, no Texas. A ideia é explorar esse filão hiper batido por ângulos inusitados – o médico residente Jim Carrico (Zac Efron), que tenta salvar a vida de Kennedy, o alfaiate Abraham Zapruder (Paul Giammatti) que, por acaso, registrou o crime com sua câmera Super-8, a angústia do segurança que sente ter falhado, o irmão de Lee Harvey Oswald, etc. A ideia é boa, mas nem chega a ser nova. Outro filme, Bobby, fez o mesmo sobre o outro assassinato na família, o do senador Robert Kennedy, visto por pessoas comuns. Mas o clima é tenso e o elenco muito bom, em especial Billy Bob Thornton, que faz um agente do serviço secreto.