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Veneza 2013 – os sentidos de uma vitória

Luiz Zanin Oricchio

09 Setembro 2013 | 05h02

Em sua primeira entrevista coletiva, o presidente do júri, Bernardo Bertolucci, disse que esperava ser surpreendido pelos filmes que ele e sua equipe julgariam. No final, foi ele, e o resto do júri, a surpreenderem a todos dando o prêmio principal, o Leão de Ouro, ao documentário italiano Sacro GRA, de Gianfranco Rosi. Tripla surpresa, na verdade: a Itália não vencia em casa havia 15 anos, desde 1998 quando Gianni Amelio levou o Leão com Così Ridevano (Assim Eles Riam). É a primeira vez que um documentário vence o mais tradicional festival de cinema do mundo, aquele que serviu de modelo a todos os outros. Por fim, nem o mais delirante dos apostadores colocaria suas fichas em Sacro GRA, apesar de bem cotado na lista de estrelinhas dos críticos de cinema e que é atualizada a cada dia pelo boletim do festival.

O projeto de Sacro GRA é registrar a vida de personagens periféricos de Roma, que vivem ou trabalham ao largo do rodoanel que circunda a cidade — GRA é a sigla para Gran Racccordo Anulare. Vemos desfilar na tela tipos como um sábio morador de um pequeno apartamento onde mora com a filha, um zoólogo empenhado em debelar pragas das palmeiras, prostitutas, um paramédico que atende emergências ao longo do rodoanel, etc. Os personagens reais interpretam a si mesmos e o filme acaba sendo muito bonito e sincero, embora careça de ossatura para ser vencedor de um grande festival. Emocionado, ao receber seu prêmio o diretor Gianfranco Rosi o dedicou a todos esses personagens anônimos que o ajudaram a ver Roma por um outro ponto de vista.

O favorito de todos, críticos e público, era o inglês Philomena, de Stephen Frears. Uma bonita história da mãe separada do filho e que tenta reencontrá-lo 50 anos depois. Era dado como vencedor por antecipação. Um observador comentou: “Não conhecem Bernardo (Bertolucci)”. Ele jamais daria o prêmio a um drama um tanto lacrimoso, embora bem feito e sobriamente interpretado. E, de fato, Philomena foi reconhecido pelo que tinha de mais consistente, seu roteiro, escrito por Steve Coogan e Jeff Pope.
Sacro GRA à parte, filmes de temática mais ousada ou maior invenção artística foram os mais bem avaliados. O grego Miss Violence deu o Leão de Prata de melhor diretor a Alexandros Avranos e a Coppa Volpi de melhor ator ao seu protagonista, Themis Panou. É a história de um pater familias que transforma a própria casa em bordel, metáfora terrível da crise. O radical Stray Dogs (Vira-Latas), do taiwanês Tsai Ming Liang, ficou com o Grande Prêmio do Júri com seus planos longos e sua história dos deserdados de Taipé. E o não menos agudo A Mulher do Policial, do alemão Philip Gröning) levou o Prêmio Especial do Júri. O público da Mostra de Cinema em São Paulo poderá ver Stray Dogs já agora em outubro. Ao receber o prêmio, Tsai Ming Liang agradeceu à plateia “Por ter ralentado o seu tempo psicológico para poder apreciar melhor o filme.”

As surpresas não se limitaram ao prêmio principal. O troféu de atriz, que todos davam como certo para Judi Dench, acabou ficando com Elena Cotta, também maravilhosa, é verdade, no seu papel de velhinha teimosa em Via Castellana Bandiera, uma espécie de western à siciliana sem tiros. Elena, 82 anos, tem 60 de experiência no palco e fez poucos filmes. “Agora tenho um futuro no cinema”, disse, feliz. Os norte-americanos, com grande número de filmes inscritos em concurso, tiveram de se contentar com o Troféu Marcello Mastroianni, para ator emergente, concedido ao jovem Tye Sheridan, em Joe, de David Gordon Green.

Um dos favoritos made in USA era The Unknown Known, de Errol Morris, longo documentário-entrevista com o falcão Donald Rumsfeld, secretário de Segurança de Bush na época da invasão do Iraque. “Vendo aquele sorriso permanente no rosto de um responsável por centenas de milhares de mortos, cogitamos dar-lhe o prêmio de melhor ator. Ou talvez de melhor atriz”, ironizou Bertolucci. “Mas achamos que não não era bem o caso”.

Tomada em seu conjunto, a seleção de filmes de Veneza 70 é apenas mediana. Ou de mediana para boa. Nada genial, em todo caso. No entanto, como se diz, um festival é um drama (às vezes uma tragédia, outras uma comédia) escrito em três atos. O primeiro compõe-se dos títulos selecionados para o concurso. O segundo é a maneira como eles são recebidos e debatidos pelo público e crítica, como são amados ou repudiados, as discussões que levantam ou a indiferença em que caem. O terceiro ato é o veredicto do júri, que fornece o retrato final pelo qual aquela edição do festival será lembrada.

No caso de Veneza 70 os dois primeiros atos não foram exatamente memoráveis. Mas, com seu senso de ópera, Bertolucci, há que se reconhecer, preparou um Gran Finale. Os filmes mais provocativos foram lembrados na premiação e o eleito ao Leão de Ouro demole de vez a separação entre ficção e documentário, fronteira artificial que festivais brasileiros de prestígio, como o de Brasília, teimam em manter, colocando-se na contramão da História. Com esse resultado, Veneza põe-se na dianteira.

 

 

Veneza 70 – Principais Prêmios

Leão de Ouro, melhor filme: Sacro GRA, de Grianfranco Rossi (Itália)
Leão de Prata de melhor direção: Alexandros Avranas, Miss Violence (Grécia)
Grande Prêmio do Júri: Stray Dogs, de Tsai Ming Liang (Taiwan)
Coppa Volpi, melhor ator: Themis Panou, por Miss Violence (Grécia)
Coppa Volpi, melhor atriz: Elena Cotta, por Via Castella Bandiera (Itália)
Melhor roteiro: Steve Coogan e Jeff Pope, por Philomena (Grã-Bretanha)
Prêmio Especial do Júri: A Mulher do Policial, de Philip Gröning (Alemanha)
Leão do Futuro – Prêmio Luigi De Laurentiis a um primeiro filme: White Shadow, de Noaz Deshe (Itália, Alemanha, Tanzânia)
Prêmio Marcello Mastroianni a um ator ou atriz emergente- Tye Sheridan, de Joe (EUA)