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Veneza 2013: o horror da América

Luiz Zanin Oricchio

31 de agosto de 2013 | 19h27

 

Nicolas Cage volta a interpretar a si mesmo em 'Joe' - Alessandro Bianchi/Reuters
Alessandro Bianchi/Reuters
Nicolas Cage volta a interpretar a si mesmo em ‘Joe’

Dois filmes norte-americanos nas seções de ontem e, em ambos, o gosto amargo do reverso do sonho americano. Em concurso,Joe, de David Gordon Green, com Nicolas Cage no papel-título, ambientado no Texas, entre gente violenta que prefere recorrer à arma doméstica que à polícia para resolver rixas. O ambiente talvez seja pior, ainda que na tela apareça clean, em The Canyons, de Paul Schrader, fora de concurso, uma história ambientada em Los Angeles, com clima de neonoir, pondo em cena um elenco com atores pornô.

Joe, baseado no romance de Larry Brown, até que se sustenta bem. Cage não precisa fazer muito esforço para interpretar a si mesmo mais uma vez. A verdade é que o personagem, um ex-encrencado com a lei que agora trabalha para levar vida normal, é crível. Em especial quando se torna figura paterna para um garoto meio desamparado, filho de uma família disfuncional a mais não poder. Ou seja, o durão Joe encontra dentro de si a ternura de paizão de que o garoto precisa.

Essa história da figura paterna, aliás, foi o tema mais discutido durante a coletiva de imprensa. Cage, lacônico como seus personagens, mostrou um raro momento de vivacidade durante a entrevista e admitiu que sim, “a paz no mundo começa dentro de casa com a figura de um bom pai”. Quando questionaram, no entanto, por que, a seu ver, a sociedade americana continuava a resolver muitas coisas à base de armas nas mãos, retrucou que não era a pessoa adequada para responder à pergunta. E calou-se.

Já Green define o personagem Joe como não exatamente um fracassado, mas alguém admirável em certos aspectos, porém atravessado por defeitos fatais. “É um tipo que tem a sua própria lei, o filme acaba sendo quase um western, em que o protagonista busca a sua redenção, que seria tornar-se um pai.”

De fato, a história é construída em torno de valores caros à cultura americana, e que encontraram no faroeste a sua melhor expressão: a honradez, a valentia, o valor do trabalho e do dinheiro, a luta para que a lei substitua a violência pura. Joe os pratica, porém sua falha trágica será o apelo muito fácil para a violência como meio rápido de solução de conflitos. É um tipo que odeia mediações. Green filma com intensidade e, embora o roteiro despenque ali e aqui, fica-se com impressão favorável do filme. O garoto é interpretado por Tye Sheridan, que esteve em A Árvore da Vida, de Terrence Malick.

Já The Canyons, de Paul Schrader, com roteiro de Bret Easton Ellis, é um equívoco do princípio ao fim. Era esperado com grande curiosidade, por motivos confessáveis e outros menos. Sim, há Schrader, grande nome, diretor de Gigolô Americano e roteirista de Taxi Driver. Há o texto (que se esperava) provocativo de um enfant terrible da literatura como Ellis. E um elenco formado por atores do circuito pornô, como James Deen, e a polêmica Lindsay Lohan. Eles estão em Hollywood e devem fazer um filme, mas quando o financiador descobre que sua garota tem um caso com o diretor da suposta produção, a coisa desanda numa escalada de ciúmes e sangue.

O filme foi feito com meros 150 mil dólares, o que talvez explique imagens lavadas e tom rústico. Mas não o artificialismo. Fica-se com a impressão de um pornô sem pornografia, porque os atores  parecem contidos demais. A partir de certo ponto, a plateia passou a rir, pois The Canyons virara comédia involuntária.

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