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Vendo o jogo no quiosque da praia

Luiz Zanin Oricchio

07 de abril de 2009 | 08h58

Como estava no litoral este fim de semana, e não tenho TV a cabo em casa, fui ver o jogo entre Ponte Preta e Santos no sagrado recinto de um botequim. Na verdade, um quiosque no Canal 6, vizinho ao Zé do Coco, o mais famoso vendedor dessas frutas em Santos. Formou-se uma pequena multidão para filar a TV do quiosque, digamos uns 20 ou 25 desocupados como eu. A dramaticidade do jogo, a virada e revirada, a classificação improvável e o pênalti agônico foram criando um clima passional típico de Copa do Mundo. Pelo menos das antigas Copas, com desconhecidos se abraçando, brindando com os copos de cerveja e alguns desavisados, sem espírito crítico, até ensaiando o hino do clube. Voltei para casa sob chuva e podia ouvir, pelo bairro da Ponta da Praia, gritos de comemoração na noite e o tal hino tocando no aparelho de som de uma e outra casa.

Tudo isso para dizer que, mesmo neste campeonato, para muitos esvaziado, o futebol mostra-se capaz de despertar antigas emoções. O medo, a torcida, a esperança por um fio e o desafogo final: todos esses elementos dramáticos se fizeram presentes, um a um, nesses 3 a 2 suados. Quem se importava, no final, que a partida não fora um primor do ponto de vista técnico? Ou que um ou outro jogador, em especial o novato Neymar, tivesse decepcionado? Na verdade, o velho e bom futebol havia cumprido a sua função na economia psicológica dos torcedores. Todos, tenho certeza, voltaram para casa mais leves, saudáveis e mais generosos depois dessa pequena experiência coletiva. Voltaram melhores, como quem volta de uma peça de teatro especialmente bem sucedida, em que as paixões são discutidas a fundo no palco e tudo se resolve (para o bem ou para o mal) num desfecho eletrizante, para desafogo do público.

Os antigos gregos chamavam catarse a essa sensação de alívio proporcionado pelas tragédias. Pela alternância da agonia e êxtase, elas nos purgam das mazelas cotidianas e nos fazem participantes imaginários de um mundo maior, valoroso, aventureiro. Um mundo de paixão e loucura, inesperado, regido pelo destino. Um mundo onde vale a pena viver. Sem substituir o teatro, o futebol ocupa o lugar da tragédia no mundo contemporâneo. Daí a sua popularidade, seja num embate milionário da Champions League, seja em nosso humilde campeonato regional.

Experiência coletiva, eu disse anteriormente. Como uma grande peça de teatro, também o jogo de futebol foi feito para ser assistido em boa companhia. Em meio aos nossos iguais. Seja num estádio lotado, seja num simples botequim defronte a uma televisão. Sozinho, não é nunca a mesma coisa. Sós, não somos ninguém. Por mais que esse mundo autista tente nos isolar diante de nossas telas de computador ou de TV, nada substitui essa grande comunhão coletiva e humana.

Comunhão favorável também para observar como podem ser incertos os favores da plebe. O garoto Neymar, novo ainda, cheirando a tinta, foi hostilizado por sua inapetência pela disputa. “Pipoqueiro”, ouvi falar um ingrato. Outro acrescentou: “Quer ir para a seleção sub-17 e se esconde do jogo.” As opiniões sobre Kléber Pereira foram compreensivelmente desencontradas: “Não pega na bola”, reclamavam no início do jogo. E, depois dos três gols: “Matador. É a nossa salvação.” Sim, senhores jogadores, mimados atletas do meu País: esse é o humor da multidão, inconstante qual pluma ao vento.

(Coluna Boleiros, 7/4/09)

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