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Vanzolini

Luiz Zanin Oricchio

29 de abril de 2013 | 11h40

 

É meio banal dizer que Paulo Vanzolini, morto aos 89 anos neste fim de semana, tenha sido um cronista de São Paulo. Foi mesmo. Mas por que essa cidade tão áspera, comporta poetas como ele e Adoniran Barbosa?

A verdade é que, para captar uma certa boêmia paulistana, de uma certa época ( digamos, anos 50 ou 60), é preciso escutar os sambas de Vanzolini. Volta por Cima, Samba Erudito, Ronda e tantos outros. Melodias simples, porém não banais. Letras secas, diretas, de um boêmio com diálogo com a cultura, com a ciência. Por mais que falemos mal de Sampa, talvez seja um dos poucos lugares onde um biólogo de renome internacional seja também um sambista de talento. É uma cidade de misturas interessantes, cuja grandeza foi criativa antes de se degradar nesse gigantismo bárbaro e de hoje.

Enfim, Vanzolini foi uma figuraça, um tipo raro. Conheci-o desde o tempo da USP, quando ele ia tomar seu uísque de fim de tarde num daqueles bares da Av. Waldemar Ferreira, na entrada da universidade, e que nós, etílicamente, freqüentávamos. A ordem era não mexer com ele, que tinha fama de mal humorado. Também varias vezes o havia visto no bar Jogral, de Luiz Carlos Paraná.

Quando o conheci pessoalmente, muitos anos depois, vi que esse mau humor era folclore. Foi numa entrevista, no Museu de Zoologia, dirigido por ele. “Sabe onde está o dinheiro do samba?”, me perguntou. E me levou até uma enorme estante de livros científicos. “Está todo aqui”, disse, com orgulho. Em que outro lugar do país, ou do mundo, um compositor empregaria o fruto financeiro de sua arte para adquirir uma biblioteca cientifica que, ainda por cima, passaria a pertencer a uma instituição pública?

Esse é apenas um aspecto do Vanzolini. Mas me tocou muito. Guardo dele essa pequena lembrança. Como uma jóia.

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