Vamos cultivar nosso jardim
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Vamos cultivar nosso jardim

Em meio à imbecilização galopante, conforta saber que uma revista de ensaios, a Serrote, chega ao seu décimo ano de existência

Luiz Zanin Oricchio

13 Novembro 2018 | 18h08

Como tantos brasileiros, venho me perguntando e me atormentando com a questão: como gente tão desqualificada pode chegar ao poder?

Bem, não há uma resposta fácil a essa questão. Tenho a impressão de que nos debateremos com ela pelos próximos decênios, tamanho é o enigma a ser decifrado. Se é que um dia o será.

No entanto, enquanto a nossa inteligência, limitada, não resolve os enigmas da burrice, infinita,  precisamos sobreviver.

E como fazê-lo? Não tenho uma resposta. Mas acho que uma possível alternativa é olharmos para os escassos espaços restantes nos quais a inteligência, a sensibilidade, a solidariedade e a beleza ainda sobrevivem. Em meio às armas, vitupérios e boçalidades.

Alguém falou: vamos cultivar nossos jardins. Ajunto: desde que essa jardinagem espiritual não nos aliene do real. Sim, por mais que a realidade seja indigesta e dolorosa, temos de enfrentá-la. Porém, sem a ela sucumbir.

Encontremos rastros de inteligência. Por exemplo, num momento em que as universidades se vêem ameaçadas por esta proposta risível de “escolas sem partido”, uma revista de ensaios, como a Serrote, completa dez anos de existência.

Dez anos! No Brasil! Uma revista de ensaios!

Esse aniversário é motivo de pasmo e admiração. Aproveitemos. Abaixo o release do lançamento:

serrote completa dez anos e lança antologia de ensaios junto com número #30 da revista

O livro reúne autores como György Lukács, César Aira e Alexandre Eulalio. Também chega às livrarias a serrote #30, com ensaios de Philip Roth, Claudio Magris e Simone Weil

Lançada em 2009, a revista de ensaios do Instituto Moreira Salles chega agora à sua 30ª edição. Para celebrar a data, o IMS lança, junto com a serrote #30, o livro Doze ensaios sobre o ensaio. A antologia reúne autores clássicos e contemporâneos, como o argentino César Aira, o húngaro György Lukács, o americano John Jeremiah Sullivan e os brasileiros Lucia Miguel Pereira e Alexandre Eulalio, publicados na serrote desde os seus primeiros números. A coletânea e a revista já estão disponíveis nas livrarias, sendo vendidas separadamente.

Haverá um debate de lançamento das duas publicações no dia 21 de novembro, às 19h30, no IMS Paulista. O evento contará com a presença de três colaboradores da serrote: a socióloga Angela Alonso, o escritor Milton Hatoum e o psicanalista Tales Ab’Sáber. A antologia e a serrote #30 também serão lançadas no Rio de Janeiro, no dia 4 de dezembro, às 19h, na Livraria da Travessa de Ipanema. Na ocasião, haverá um debate gratuito com a crítica literária Beatriz Resende e os filósofos Carla Rodrigues e Eduardo Jardim, que também já colaboraram com a revista.

Organizada por Paulo Roberto Pires, a antologia apresenta 12 reflexões sobre o ensaio com abordagens distintas, ora intimistas, ora históricas, divididas em cinco blocos temáticos: Conceitos, À Inglesa, Teoria, Latitudes e Variações. No eixo Conceitos, o livro apresenta ensaios do suíço Jean Starobinski (1920) e do americano John Jeremiah Sullivan (1974). Formado em psiquiatria e literatura, Starobinski investiga, em “É possível definir o ensaio?”, as etimologias e as origens do gênero, marcado pela tensão entre o geral e o particular. Já em “Essai, essay, ensaio”, Sullivan, autor do premiado livro Pulphead, explica por que se considera que os franceses inventaram o ensaio, e os ingleses, o ensaísmo.

A seção seguinte, À Inglesa, começa com um texto da brasileira Lucia Miguel Pereira (1901-1959), “Sobre os ensaístas ingleses”, em que a autora defende que a Inglaterra foi o país onde o gênero melhor floresceu. Em seguida, o britânico William Hazlitt (1778-1830) reflete sobre a sua produção e a de seus contemporâneos, em “Sobre os ensaístas de periódico”, clássico publicado pela primeira vez em português na revista.

No eixo Teoria, o leitor encontra dois textos de referência. Um dos grandes teóricos do marxismo, o húngaro György Lukács (1885-1971) comparece com “Sobre a essência e a forma do ensaio”. Já o filósofo alemão Max Bense (1910-1990) defende que o gênero “é uma peça de realidade em prosa que não perde de vista a poesia”, no texto “O ensaio e sua prosa”, que permaneceu, por mais de seis décadas, inédito no Brasil.

A seção Latitudes traz três textos. Em “Nossa América é um ensaio”, o colombiano Germán Arciniegas (1900-1999) associa o gênero à história do continente e à descoberta do Novo Mundo, que abalou as certezas de até então. Em “O ensaio literário no Brasil”, Alexandre Eulalio (1932-1988) apresenta um panorama da recepção do gênero no país ao longo de 200 anos. A produção do próprio Eulalio é abordada no texto seguinte, “Viagem à roda de uma dedicatória”, assinado pelo editor da serrote, Paulo Roberto Pires (1967).

A última seção, Variações, reúne três escritores contemporâneos. Em “Retrato do ensaio como corpo de mulher”, a americana Cynthia Ozick (1928) defende que um verdadeiro ensaio “não serve a propósitos educativos, políticos ou sociopolíticos: é o movimento de uma mente livre quando brinca”. Christy Wampole(1977), professora de Princeton, cria uma analogia entre a figura do ensaísta e a do DJ. Um dos principais nomes da literatura contemporânea, o argentino César Aira (1949) defende, em “O ensaio e seu tema”, que a escrita ensaística é o lugar de união de saberes distintos.

O texto de Aira também é publicado na serrote #30, que chega às livrarias junto com a antologia. Nesta edição comemorativa, a revista reúne textos de Philip Roth, Henry Louis Gates Jr., Claudio Magris, Simone Weil, Carla Rodrigues, Eucanaã Ferraz, Joca Reiners Terron, Djaimilia Pereira de Almeida e Humberto Brito, Daniel Salgado, além de um ensaio visual de Luiz Zerbini.

Entre os destaques da revista, está o texto “Contemplando Kafka”, de Philip Roth (1933-2018), que narra os últimos anos de vida de Franz Kafka e, em um exercício de imaginação, conjectura o que poderia ter acontecido se o escritor tcheco, que morreu em 1924, tivesse vivido por mais tempo e se refugiado nos Estados Unidos. Numa de suas últimas entrevistas, Roth revelou que este ensaio, escrito em 1973 e inédito no Brasil, era um de seus preferidos.     

O historiador norte-americano Henry Louis Gates Jr. (1950), no ensaio “Branco como eu”, retoma a história do crítico literário Anatole Broyard (1920-1990), que, para se consolidar no meio editorial, omitiu sua ascendência negra.

No ensaio “O segredo e seu contrário”, o italiano Claudio Magris (1939), um dos maiores escritores europeus da atualidade, reflete sobre como o conceito de segredo está presente em diversas esferas da sociedade: da política, às brincadeiras infantis, dos mitos gregos à intimidade dos casais, e no próprio exercício da escrita.

A edição traz também “A Ilíada ou o poema da força”, clássico da filósofa francesa Simone Weil (1909-1943), publicado em 1940, durante sua militância na resistência francesa. A autora propõe que o verdadeiro tema da obra de Homero é a força, que, de diferentes maneiras, subjuga a alma humana.

Em “Fios, nós, tranças, tramas”, a filósofa brasileira Carla Rodrigues (1961) apresenta uma breve história dos feminismos no Brasil. Em “Todos pareciam felizes”, o poeta Eucanaã Ferraz (1961) reflete sobre a cultura material da década de 1960, entremeando referências distintas, como a obra de Carlos Drummond de Andrade, os filmes de Alfred Hitchcock e a arquitetura dos motéis norte-americanos.

Ainda na serrote #30, o escritor Joca Reiners Terron (1968) mergulha nos papéis e nas obsessões de Valêncio Xavier, no ensaio “O Frankenstein de Curitiba”. A angolana Djaimilia Pereira de Almeida (1982) e o português Humberto Brito (1980) refletem sobre os impasses do engajamento político em “O desinteresse pelo poder”. Em “Transgressão à direita”, Daniel Salgado (1995) recupera as origens da nova direita brasileira nos fóruns da internet.

A edição traz também ensaios visuais de Santidio Pereira, Marcos Chaves, Gego, João Loureiro, Hurvin Anderson, Helena Almeida, William Orpen e Regina Silveira, que assina a capa da revista.

Doze ensaios sobre o ensaio: antologia serrote

Organizador: Paulo Roberto Pires

256 páginas

ISBN: 978-85-8346-049-7

R$ 44,50

serrote#30

222 páginas

R$ 48,50

Serviço

São Paulo

serrote 10 anos: Como chegamos até aqui

Debate de lançamento da antologia Doze ensaios sobre o ensaio e da serrote #30 – com Angela Alonso, Milton Hatoum e Tales Ab’Sáber

21 de novembro, às 19h30

Cineteatro do IMS Paulista

Entrada gratuita, com lugares limitados

Distribuição de senhas 1 hora antes e limite de 1 senha por pessoa.

Por ocasião do lançamento, haverá um debate com a socióloga Angela Alonso, o escritor Milton Hatoum e o psicanalista Tales Ab’Sáber. Os três discorrerão sobre o momento político do Brasil e os desafios que se apresentam para os intelectuais. A conversa será mediada pelo editor da serrote, Paulo Roberto Pires, e por Guilherme Freitas, editor-assistente da revista.

Avenida Paulista, 2424

São Paulo

Tel.: 11 2842-9120

imspaulista@ims.com.br

Rio de janeiro

serrote 10 anos: Como chegamos até aqui

Debate de lançamento da antologia Doze ensaios sobre o ensaio e da serrote #30 – com Beatriz Resende, Carla Rodrigues e Eduardo Jardim

4 de dezembro, às 19h

Livraria da Travessa – Unidade de Ipanema

Entrada gratuita, sujeita a lotação do espaço

Por ocasião do lançamento, haverá um debate com a crítica literária Beatriz Resende e os filósofos Carla Rodrigues e Eduardo Jardim. Os três discorrerão o momento político do Brasil e os desafios que se apresentam para os intelectuais.

Livraria da Travessa – Unidade de Ipanema

Rua Visconde de Pirajá, 572

Rio de Janeiro

Tel: 21 3205-9002

 

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