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Vale pela emoção

Luiz Zanin Oricchio

29 de julho de 2008 | 15h53

Se é isso mesmo o que importa, então estamos feitos. Porque o Campeonato Brasileiro deste ano, tão criticado no aspecto técnico, promete emoções profundas, tanto na parte superior quanto na inferior da tabela. Digo isso porque, com os resultados da rodada do fim de semana, a classificação embolou de vez. A diferença do líder, o Grêmio, para o primeiro que está fora da zona de classificação para a Libertadores, o São Paulo, é de apenas três pontos. Isso, no topo. Lá embaixo, a distância entre o lanterna, o Ipatinga, e o primeiro que escaparia hoje da degola, o Vasco, é também de três pontos. Quer dizer, o que existe é muito equilíbrio, pelo menos até agora. Pode ser algo circunstancial, que talvez se rompa se algum time disparar na parte de cima, ou se afundar de vez, na de baixo. Mas acredito que vai assim até o final.

O fato é que existe um efeito nivelador no futebol brasileiro, uma espécie de termostato que regula a temperatura automaticamente assim que ela sobe ou desce demais. O que é lógico (dentro da lógica estapafúrdia do futebol), pois quanto melhor for um time mais propenso ele será a perder jogadores para o exterior e portanto piorar, até se nivelar aos de baixo. O melhor exemplo é o do Flamengo, que disparava na ponta, trotando alegremente, até ficar sem Renato Augusto, Marcinho e Souza, um atrás do outro. Quase ficou sem o técnico também, sondado pela moeda forte do mundo árabe. Conclusão: com tudo isso o Mengo perdeu fôlego, visivelmente.

É apenas um caso, mas que ilustra a instabilidade que se tornou a regra do futebol brasileiro e faz a maior parte dos clubes viver em uma gangorra permanente. Outros exemplos do sobe-e-desce: o Vitória veio da Segunda Divisão e, neste momento, encontra-se classificado para a Libertadores e – por que não? – disputando o título. Já o Fluminense, que chegou à final da Libertadores e perdeu a taça na disputa por pênaltis, estacionou na zona de degola e lá montou residência. O Santos, que no ano passado foi campeão paulista e vice no Brasileiro, continua morando no mesmo bairro do Flu, apesar da boa vitória de domingo sobre o Vasco. Por falar nele, o clube de Roberto Dinamite é outro que anda pela proximidade do descenso. Já se interessou pela vizinhança e procura casa na região. E o Atlético Mineiro só tem dois pontinhos a mais que o Vasco. É outro candidato ao condomínio dos infelizes.

Portanto, se alguém lhe pedir um palpite sobre o campeonato, o melhor é responder como Sócrates (o filósofo, não o jogador): tudo que sei é que nada sei. Frase lembrada por Mauro Beting e que define muito bem a nossa perplexidade diante desse campeonato sem valores seguros e no qual qualquer certeza torna-se candidata natural ao anedotário de bar.

Outro filósofo, Vanderlei Luxemburgo, teceu comentário na mesma direção. Disse que não existem nem grandes times e nem jogadores excepcionais no Brasil, tornando impossíveis as previsões. O jeito, disse ele, é garantir pontos em casa, com apoio da torcida, e beliscar um ou outro pontinho fora, no descuido do adversário. E é só. Não sei dizer, mas acho que constatar essa instabilidade toda deve ser muito duro para um técnico que, por ofício, precisa transformar o futebol em atividade racional e previsível, tanto quanto possível. Mas é isso mesmo.

Diante dessa situação, podemos sentar no meio-fio e chorar lágrimas de esguicho, como recomendava Nelson Rodrigues. Mas podemos também olhar para um campeonato que tem de seis a oito candidatos ao título e quatro grandes clubes ameaçados de rebaixamento e chegar à conclusão de que não existe futebol mais emocionante do que este. Você decide, meu caro.

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Se quiserem, vejam a entrevista que dei a Milton Pazzi Jr. na TV Estadão, sobre as situações do Santos, Palmeiras e São Paulo

(Coluna Boleiros, 29/7/08)

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