Vale a pena mexer nos ‘Chefões’?
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Vale a pena mexer nos ‘Chefões’?

Luiz Zanin Oricchio

04 de setembro de 2020 | 17h15

 

Leio que Coppola vai mexer na montagem de O Poderoso Chefão 3. A notícia não diz se ele vai alterar também os Chefões 1 e 2. Não seria surpresa. Por razões artísticas (ou de mercado?), Coppola volta e meia altera suas obras, algumas já depositadas no escaninho de clássicos do cinema. Foi o caso de Apocalipse Now, vencedor de Cannes que, muitos anos depois,  reapareceu com a roupagem de Apocalipse Now Redux. Não contente, buliu de novo no filme e há pouco saiu a versão, diz ele, definitiva, sob o título de Apocalipse Now – Final Cut. Então não será mesmo surpresa se os Chefões sofrerem uma repaginada geral. O que penso disso? Bem, não sou conservador, muito pelo contrário. Mas não se mexe na Capela Sistina. Esperemos.

Enquanto isso não acontece, exumei um antigo texto meu sobre a trilogia. Segue abaixo:

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Com o tempo, firmou-se o consenso de que a trilogia O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, é um dos maiores épicos do cinema norte-americano em toda a sua história. Essa obra-prima, inspirada no romance de Mario Puzo, reaparece agora em todo seu esplendor através da restauração digital supervisionada pelo próprio diretor. Está sendo lançada pela Paramount em cofre com DVDs. Estes contêm um único “extra”, mas de que dimensão! Trata-se da opção de assistir aos filmes com o próprio diretor comentando, cena por cena. Como já se disse: trata-se de um curso inteiro de cinema disponível agora a qualquer cinéfilo.

Quanto já não se escreveu sobre a clássica abertura de O Chefão 1 (The Godfather, O Padrinho, no original)? Em meio à penumbra, um rosto desconhecido, com sotaque italiano, diz a frase inicial: “Eu acredito na America”. Mas todo o resto da fala é uma negação dessas palavras. Começa a contar a sua história. Sua filha havia sido estuprada e a polícia nada fizera. A câmera se afasta, milímetro por milímetro, e começamos a divisar outro personagem, de costas. Ele faz um gesto com a mão e um cálice de bebida é servido ao homem, para que ele tenha forças para prosseguir. Mais a câmera se afasta e mais o novo personagem entra em cena. É o “padrinho”, Vito Corleone, na interpretação genial de Marlon Brando. A cena se aclara. O homem viera pedir vingança. Ou melhor, “justiça”, como ele diz. Aquele era o dia do casamento da filha do Capo. E, nesse dia, de acordo com a tradição siciliana, ele atende aos pedidos dos suplicantes. Enquanto essa cena patética se desenvolve no gabinete obscuro de Dom Corleone, lá fora tudo é luz, música e festa.

É uma das mais geniais aberturas de um filme em todos os tempos. O curioso é descobrir, pelo comentário de Coppola, que não era para ser assim. Sua ideia inicial era começar pela festa de casamento, na qual se definem as relações entre os personagens, suas características e motivações. Mas foi aconselhado a tentar algo diferente e imaginou essa abertura no escuro do escritório do homem poderoso.

Em relação às obras-primas temos sempre essa impressão – a de que não existe nada que se possa mudar, sem que sua perfeição fique comprometida. E nos esquecemos de que, no mundo do cinema, muitas coisas que dão certo são puramente acidentais. O talento do cineasta consiste em transformar esses acidentes em oportunidades criativas que, em certos casos, melhoram o resultado final. A abertura do primeiro filme da trilogia é um dos exemplos.

Outros, são os atores que Coppola foi perdendo ao longo da saga, filmada em três momentos muito diferentes. Os dois primeiros são relativamente próximos. O primeiro Chefão é de 1972, o segundo, de 1976. Mas o terceiro só apareceria em 1990. Para este, Coppola perdeu um dos seus personagens mais marcantes, o advogado da família mafiosa, Tom Hagen, vivido por Robert Duvall, presente nos dois primeiros filmes. Não houve acordo financeiro para o terceiro e Coppola teve de se virar sem Duvall. “Diluí seu papel em vários advogados na terceira parte”, diz. Funcionou bem. Mas jamais saberemos como ficaria com Duvall.

Outro desfalque foi o de Richard Castellano, intérprete de Clemenza, carismático mafioso da famiglia Corleone, amigo de juventude de dom Vito. Nesse caso não foi dinheiro, mas Castellano exigiu que no segundo filme, ele próprio escrevesse seus diálogos. Inaceitável. Coppola foi obrigado a “matar” o personagem. Seu substituto, Frank Pantangelli (Michael V. Gazzo) proclama, na primeira cena em que aparece, que Clemenza havia morrido. Como a interpretação de Gazzo é nada menos do que magnífica, Coppola não teve do que se lamentar.

Se os acidentes de percurso são esclarecedores, mais ainda parecem as referências internas do diretor. A mais forte, Shakespeare, influência que faz da trilogia uma tragédia contemporânea. De certa forma, a saga pode ser vista, entre muitíssimas outras coisas, como a troca de poder entre o velho Corleone (Marlon Brando) e seu filho, Michael (Al Pacino), como em Rei Lear. Michael ascende na primeira parte da trilogia, atinge seu ápice na segunda e decai na terceira, sendo, por sua vez, substituído pelo novo chefão – Vincent (Andy Garcia), seu sobrinho. A personagem feminina Connie, irmã de Michael (e interpretada por Talia Shire), irmã de Coppola, é uma versão moderna de Lady Macbeth. E assim por diante.

Há quem prefira uma ou outra parte da trilogia. A primeira vale-se do impacto da novidade. A segunda é mais complexa. A terceira não obteve a mesma repercussão e foi tida como exemplo de déjà vu. Claro, existem, entre os três filmes, pontos mais altos que os outros. Mas o conjunto é magnífico e assim deve ser visto, em seu todo. Tem a grandeza dos afrescos italianos.

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