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Vale a pena lutar? *

Luiz Zanin Oricchio

06 de novembro de 2012 | 09h07

Amigos, fiquei muito tocado com o jogo entre Palmeiras e Botafogo. Parecia a resistência heroica de um time já condenado, mas que se recusa entregar os pontos. E aquele gol de empate, lindo gol de Barcos, soou, não digo como redenção, mas uma espécie de consolo para aquela massa sofrida que acompanhava o time. Foi nesse momento que me atravessou a cabeça o pensamento que dá título à coluna: por que devemos lutar quando tudo indica que já perdemos a parada?

 

Para ser franco, algumas imagens da partida me tocaram além da conta. Falo das torcedoras, muito bonitas, que choravam copiosamente quando o jogo se encaminhava para o fim e o Palmeiras seguia perdendo, injustamente, para o Botafogo. As lágrimas caíam e desmanchavam a maquiagem das moças. Nesse momento, veio o golaço de Barcos, já nos descontos, e, uma delas, de cabeça abaixada, levantou-se e comemorou timidamente, pois aquele gol significava alguma coisa; talvez nada de prático, mas era um desabafo, uma pequena alegria em meio à dor. Enquanto as moças choravam, os machões ameaçavam sabe-se lá quem, o que dá ideia da diferença de civilidade entre um e outro sexo.

Enfim, o Palmeiras lutava. Caía em pé, como se diz. Um lugar-comum, sei bem, mas que define uma certa atitude de braveza – e no bom sentido do termo. Aqui, caiu a ficha: lutamos, mesmo quando não temos grande chance de atingir o objetivo, por uma questão de dignidade pessoal. Porque é muito feio amolecer o corpo e dar tudo por terminado. Mas lutamos, principalmente, e essa é a minha impressão, para melhor preparar a ressurreição. A volta por cima, expressão consagrada por Paulo Vanzolini em um dos seus sambas mais populares. Lutamos para podermos nos olhar no espelho no dia seguinte.

Um velho político e revolucionário brasileiro dizia que a pior derrota é aquela que se dá sem luta. Falava, é claro, do combate político, esse jogo mais violento que o futebol e que não pode ser regido por singelas 17 regras. Meditei muito em minha vida sobre essa frase. E cheguei à conclusão de que uma derrota, bem lutada, até o fim, nos prepara para desafios futuros e, eventualmente para as vitórias que virão. As derrotas sem luta humilham. Por isso, dizem os do Sul que não está morto quem peleia. Têm toda a razão.

À luz da fria aritmética, a missão do Palmeiras é quase impossível. Mas entre a esperança e o descenso há ainda essa pequena palavra, o “quase”. Enquanto pudermos falar que o Palmeiras está “quase”rebaixado, é sinal de que a esperança ainda vive. Por enquanto, é se concentrar na luta. E, só depois, se o pior realmente vier, discutir os culpados e se preparar para a volta. Afinal, quando se vende caro uma derrota, a torcida têm obrigação de compreender, abraçar o time e ajudá-lo a voltar. Sem contar que, aconteça o que acontecer, o Palmeiras terá pela frente a Libertadores, sonho de consumo de todos os grandes clubes brasileiros, mas privilégio de poucos.

 * Coluna Boleiros, publicada no Caderno de Esportes do Estadão

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