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Vagas Estrelas da Ursa

Luiz Zanin Oricchio

30 de novembro de 2009 | 15h38

Vagas Estrelas da Ursa – este verso de um poema de Giacomo Leopardi dá título a um dos mais belos e intensos filmes de Luchino Visconti. Intimista, em contraste com o imenso painel histórico de O Leopardo, que Visconti havia lançado em 1963, Vagas Estrelas, de 1965, narra, em suntuoso preto e branco, o relacionamento entre Sandra (Claudia Cardinale) e seu irmão, Gianni (Jean Sorel). A cópia em DVD (Versátil, R$ 44,90) preserva a qualidade plástica da obra, o que, neste caso em particular, é absolutamente fundamental.

A história começa numa festa burguesa, na qual vemos Sandra e o marido, Andrew (Michael Craig). Em seguida, o casal vai de carro a Volterra, para a casa onde Sandra e Gianni passaram a infância. A câmera acompanha esse trajeto por estradas, túneis e paisagens. A rota é como a mudança da cidade para o campo, do presente para o passado. Volterra guarda resquícios da civilização etrusca; ao mesmo tempo, são ruínas que se desfazem sob a ação do tempo. Vai-se ao passado, porque Vagas Estrelas é, também, um estudo sobre a memória.

Memória em todos os sentidos, inclusive o histórico, em sua referência ao nazismo e à perseguição aos judeus. O pai de Sandra morrera em Auschwitz depois de uma delação da qual, suspeita-se, a mãe poderia ter participado, em cumplicidade com o amante, Gilardini, com quem se casa depois. Desenha-se, desse modo, toda uma relação de Vagas Estrelas com a Oréstia, na qual Sandra seria Electra, a mãe, Clitemnestra e Gilardini, Egisto. São aproximações e não uma transcrição literal da peça de Ésquilo. Uma comodidade narrativa, como disse Visconti em algumas ocasiões.

Em todo caso, esse tom mítico impregna a história desde a chegada a Volterra. Há algo de primevo aí, e que alça o filme a uma condição superior que vai além de um amor fraterno hipertrofiado, as circunstâncias da guerra, os ciúmes do marido. Todos esses elementos vão sendo cozidos no fogo nada brando dos sentimentos ancestrais, intensos, contraditórios, irracionais. O clima é ainda adensado pela reiteração de uma música excepcional – o Prelúdio, Coral e Fuga, de Cesar Franck. Essa peça se ouve no primeiro e no último planos do filme e reaparece a cada vez como “comentário musical”, conforme se lê nos créditos.

A tragicidade dessa música parece conduzir a narrativa e fazer todo o peso do mundo convergir sobre os personagens. Mesmo sobre Sandra que, como Electra, funcionaria como símbolo da consciência familiar, da ordem desafiada pelo caos. Os olhos de gata, ou tigresa – ou ursa -, de Claudia Cardinale, em seus 25 anos, são a imagem perfeita dessa ambivalência.

(Cultura, 28/11/09)

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