Utopia e Barbárie
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Utopia e Barbárie

Luiz Zanin Oricchio

23 de abril de 2010 | 12h54

O diretor, em Moscou

O diretor, em Moscou

A sequência de sons e imagens de Utopia e Barbárie produz certa vertigem. Compreensível. É a vertigem da História, essa mesma, com agá maiúsculo, que um personagem de Joyce definiu um dia como pesadelo do qual queria despertar.

O período escolhido por Tendler reforça a sensação de vertigem. Ele faz seu percurso da explosão das bombas atômicas em Hiroshima e Nagazáki até a queda do Muro de Berlim, com uma coda para atualidade, o 11 de setembro e a crise mundial de 2008. Qual o sentido disso tudo?, é o que nos perguntamos ao ver a sucessão de imagens desse meio século frenético. É a mesma pergunta que se faz diante da História. Vai para algum lugar? Tem algum significado? Vive da lógica ou do acaso?

Não existe possibilidade de responder a qualquer dessas perguntas de um ponto de vista universal. A História é, em boa parte, o que fazemos dela. A maneira como “lemos” o passado. Por isso Tendler, documentarista de grandes personalidades (Jango, JK, agora finalizando filme sobre Tancredo Neves), assume seu posto de observação pessoal na interpretação desses 50 ou 60 anos de história coletiva.

Não que Utopia e Barbárie seja um solilóquio narcisista do autor. Nada disso. Ao invés de contemplar o umbigo, Tendler entrevista dezenas de pessoas (famosas e anônimas), monta quilômetros de imagens de arquivo e visita 15 países num trabalho de 19 anos. Mas seu ponto de vista, na organização desse material todo, é muito pessoal. Tudo é filtrado pela perspectiva de alguém formado nos anos rebeldes, que foi e é de esquerda, judeu de classe média, encantado com o sionismo socialista na juventude e que na maturidade não hesita em colocar-se no posto de observação dos palestinos. Diante do caos da História, há a coerência de uma trajetória.

Portanto- e esta é uma observação acaciana, óbvia, mas necessária – Utopia e Barbárie nos propõe um recorte que, claro, passa pelos principais acontecimentos da segunda metade do século 20 e começo do 21, porém vistos por um determinado olhar. Uma visão dupla, que mira de um lado o sonho, de outro a expectativa da tragédia. Os sonhos libertários dos jovens de 1968 e a tragédia das ditaduras latino-americanas; Ângela Davis e Muhammad Ali de um lado, Augusto Pinochet e Pol Pot de outro. As grandes passeatas estudantis e a gravação do Conselho de Segurança Nacional ao decretar o AI-5. Allende, Che Guevara, Ferreira Gullar, José Celso Martinez Corrêa e Luiz Carlos Maciel. Dilma Rousseff e Franklin Martins. Nomes, opiniões, vivências. Imagens e sons que confluem e colidem na voragem do devir histórico.

Há problemas em Utopia e Barbárie. Ficamos pensando, às vezes, por que o filme não dialoga mais a fundo com Chris Marker, uma das suas referências? Por que à força das imagens de rua, com toda a sua crueza, se contrapõem imagens televisivas, enfraquecidas? Por que o sentido poético do caos muitas vezes se banaliza no efeito prosaico dos depoimentos? Por que essa sensação de que o poder das imagens não fala por si só, mas precisa ser acompanhado de explicações?

São dúvidas, que não tiram, apenas atenuam um pouco o impacto dessa viagem a esse tempo de grandes sonhos e grandes decepções, de posições contraditórias e excludentes, de generosidade e miséria, de utopia e de barbárie, termos que caminharam mais juntos do que se supõe. Tempos de tanta violência, mas tanta ternura, conforme o verso de Mário Faustino que Glauber Rocha cita em Terra em Transe.

(Caderno 2, 23/4/10)