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Umberto Eco testemunhou a invasão de Praga

Luiz Zanin Oricchio

10 Fevereiro 2008 | 10h32

Qual a imagem que melhor expressa o espírito de 1968? A fotografia famosa de Che Guevara, registrada por Alberto Korda, liderava a sondagem do semanário italiano L’Espresso com 47% dos votos. A imagem de Guevara é seguida pela de manifestantes sendo dispersados por bombas de gás lacrimogêneo e, outras, menos votadas, como a do assassinato de Martin Luther King, os Beatles, etc.

A enquete no site da revista é parte das iniciativas para recordar “o ano que não terminou”, segundo a feliz definição de Zuenir Ventura, autor do livro brasileiro mais famoso sobre o período. A 40 anos de distância de 1968, a revista colocou nas bancas nada menos que dois volumes inteiros de textos de época e análises contemporâneas, situando e discutindo esse ano tão controverso. No volume 1, evocam-se os anos preparativos da contestação (1965-67), estilo de vida, os mitos, o Vietnã, etc. No 2, aparecem os anos de 1968-69, os grandes temas da cultura e da contracultura, a questão operária, a posição dos católicos, a luta dos negros nos Estados Unidos, a reação no mundo comunista, as revoluções musicais. Como se vê, um dossiê para ninguém botar defeito.

Um dos textos mais interessantes, e pungentes, é o relato do escritor Umberto Eco, que estava em Praga quando os tanques soviéticos entraram para esmagar o “socialismo com rosto humano”, de Alexander Dubcek. Porque essa é outra das faces de 1968 – a tentativa de conciliação do comunismo com a democracia, uma das utopias históricas da época.

No artigo, publicado dia 1 de setembro de 1968, Eco diz que estava em Praga de passagem, indo de carro a Varsóvia para um congresso. Parou em Marienbad e Karlovy Vary e, em seguida, dirigiu-se à capital checa (checoslovaca, então). Descreve o clima nas praças de Praga, como “tenso porém sereno”. Não se trata de uma contradição em termos? Não. Ele se admira de que momento grave como aquele tenha sido enfrentado com toda a dureza – mas também com humor. “O humor é um dado importante, e isso era repetido um dia antes (da chegada dos tanques) pelo secretário da Associação de Escritores: ‘somos um grande povo’, me diz com orgulho. ‘Estamos fazendo uma coisa importante com humor, e nenhum de nós gosta de dramatizar a situação'”.

Grande tensão e grande serenidade. Uma atmosfera de festa e vitalidade impressionante, testemunha o escritor. E, em seguida, vem a ocupação. Com ela, Eco descobre que estava incapacitado de deixar o país. O carro não tinha gasolina suficiente para a viagem e não havia mais combustível à venda. Mesmo que tivesse os meios à mão, as fronteiras haviam sido fechadas. Eco deixou o carro na casa de amigos e foi para a rua.

Testemunhou gente que perguntava aos soviéticos o que estavam fazendo ali, já que se consideravam amigos. Alguns soldados do Exército Vermelho se deram ao trabalho de responder que tinham vindo para “abortar um golpe fascista que estava acontecendo em Praga”. As pessoas riam, mas era o riso da revolta e muitos jogaram fora, na cara dos invasores, as carteirinhas do Partido. A resistência, de modo geral, é pacífica, porém determinada, constata Eco. Em toda parte, nos muros da cidade ocupada, lêem-se os dizeres, escritos em quatro idiomas: “Por que vieram? Quem os fez vir? Voltem para casa. Não éramos amigos?” Como se sabe, tanques não respondem com palavras.

(Cultura, 10/2/08)